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sexta-feira, 13 de junho de 2014

De Recreio

De recreio[1]
Bruno Walter Caporrino
(Macapá, novembro de 2011)


Por mais distantes, variadas e isoladas que sejam as cidades, e, mais ainda, as comunidades ribeirinhas que se espraiam pelas restingas, no caso dos grandes rios, ou nos afluentes ainda menores dos seus contribuintes, na Amazônia, há algo que as liga, que as une, que as comunica: a água. O elemento universal na vida amazônica constitui grandes e milenares vias que celebram a teoria de Torricelli e comunica os vasos: as bacias, as comunidades e as pessoas que nelas habitam.
Contrariando soberanamente os patéticos esforços urbanizantes, industrializantes, dos arautos do “desenvolvimento regional” – ou seja, da moderna exploração da delicada mão-de-obra de belas meninas indígenas, hábeis no tecer cestos, para as linhas de produção de eletrônicos da Zona Franca – e rindo-se deliciada das fracassadas e quixotescas estradas (de ferro ou não) que os governos militares tentaram impor a si, a Amazônia deleita-se em cobrir de mata projetos de um Brasil “moderno, urbano, industrial” que só encontra ecos nos mercados de capitais e na ideologia dos “50 anos em 5”: porque se há uma Trans-Amazônica, uma via que a comunica, esta é a calha dos grandes ou pequenos rios.
E, se há algo isola estas comunidades, é o mesmo elemento que as comunica todas: a água afeta tudo e todos no universo amazônico, quase numa ode à Espinoza, afetando todos os elementos e conduzindo toda a energia e as trocas entre eles. Vivendo em função dela, senão sobre ela (em barcos, canoas, casas flutuantes ou palafitas) o amazônida agrupa-se com maior ou menor rarefação às margens dos rios, e, assim, mesmo sem iluminação outra que o breu ou o sebo das velas, sem telefonia ou qualquer outro meio de comunicação eletrônico, ele sempre se valeu dos grandes ou pequenos barcos que percorriam cada igarapé ou rio onde houvesse borracha e caucho, peixe, carne de caça ou peles a trocar por pilhas, rádios, tecido, panelas, cachaça, sal, açúcar, café, toda sorte de produtos que o caboclo, mesmo em sua auto-suficiência, não produzia, mas desejava.
O marreteiro, este condutor do batelão que se embrenha nas curvas e liga aldeias a seringais, assume assim, na Amazônia, o lugar de um mito histórico: quase um agente do Leviatã tirânico que, proprietário dos grandes vapores, dos seringais, dos barracões, e das almas retirantes e sua produção, ele comunica, troca, faz o escambo que permite a aquisição e venda de bens, e, mesmo explorando o indígena, o seringueiro, ou o caboclo filho dos dois, presta-lhe de certa forma um serviço: em seu batelão, escoa-se a produção local dos recantos mais aparentemente inacessíveis, até as vilas ou cidades maiores, onde, do porão deste batelão, passavam e ainda passam para armazéns, muitas vezes flutuantes que os repassam aos porões dos recreios, que os levam às capitais.
Em contrapartida, o marreteiro, por levar mercadorias de uma calha a outra, transpondo as “bolas” de “terra firme” antigamente muito mais difíceis de se transpor, acabava tecendo, qual uma Penélope paciente, teias de sociabilidade que apenas a Radiobrás, em seu programa matinal captado por todos os rádios portáteis (comprados ao marreteiro, assim como suas pilhas) conseguia: ele comunicava pessoas, comunidades, levando não apenas cartas de amor como testamentos, documentos, dinheiro, aflições e angústias aos solitários homens que insistiam em percorrer estradas de seringa longe das esposas.




O mesmo faziam os grandes vapores, elegantes e imponentes, todos em ferro, que eram manipulados pelos proprietários dos seringais, dos barracões, e das almas que alimentavam a tudo isso em regime de servidão, através do sistema de aviamento que os obrigava a viver para trabalhar na dura lida tão rica e belamente narrada pelo magistral Arthur Engrácio, pelo exímio Ferreira de Castro.
Mas a diferença, contudo, entre ambos, residia nos percursos: os vapores, que ostentavam o poderio de seus proprietários, faziam as grandes linhas, ligando as capitais (Manaus, Belém, Rio Branco) aos seringais e fazendas, ao passo em que os batelões seguiam adiante, enfrentando praias, restingas, paus, e toda sorte de desafios que apenas aqueles que já se dedicaram a viajar sozinhos numa pequena embarcação rio acima saberão do que se trata aqui.
O fato que nos interessa aqui é que, com a configuração de um sólido mercado capaz de absorver a borracha escoada pelos vapores e pelos batelões, acabou por agitar-se as vias fluviais, e permitir-se a diversos armadores independentes estruturar embarcações em madeira, perfeitamente elegantes e adequadas ao contexto naval e cultural local, e cujo feitio impressiona pelo equilíbrio das formas, pelo esmero na confecção e pela navegabilidade ligeira e vacilante, mas segura e serena.
O aumento no tráfego de correspondência e produtos engendrou uma expansão no mercado de navegação fluvial, já que para além dos seringais, comunidades começaram a se configurar  como vilas, ao passo em que em alguns pontos, onde soliloqüentes casas de madeira flutuantes ou sobre palafitas começaram a se “conurbar”, para atender ao aumento no número de seus moradores.
Para atender à esta demanda, construía-se estas embarcações de feitio extremamente elegante, compostas geralmente por dois conveses, e, no caso das mais portentosas, três conveses e uma tolda que fazia as vezes de área de lazer, da ainda existente “primeira classe”: trata-se das Gaiolas.
Concomitantemente ao aumento da demanda de embarcações para escoar a produção, comunicar as comunidades e vilas e levar passageiros que até pouco tempo simplesmente não existiam, tomou a Amazônia uma cultura inédita até então, fruto das interações históricas entre diversas (e variadíssimas) etnias indígenas com ex-seringueiros (fugidos ou “alforriados” do aviamento), adaptando-se estilos de manejo simbólico, cultural, religioso, lingüístico e concreto do mundo, num constante fluxo de trocas e co-criações coletivas – mas isoladas, distantes, o que garantiu seus feitios tão diversos.
Se o mundo do seringal era, para o indígena cooptado ou para o migrante ludibriado (que inicia sua pesada lide devendo, um mundo de trabalho pesado e isolamento e solidão), com o boom da borracha e a conseqüente queda de valor do produto fizeram com que houvesse uma dispersão demográfica sem precedentes na região: e as embarcações independentes que faziam o tráfego de produtos, correspondência e passageiros (até então inéditos, como se disse) perdem paulatinamente o nome de Gaiolas (denominação devida ao elegante gradeamento de madeira cujo feitio varia em função da região, da calha navegada e à associação entre navegação e aviamento, semi-escravidão, na mentalidade do seringal) e ganham, no Amazonas, o nome de Recreios.
Por se tratar de longas distâncias a serem navegadas, os passageiros que esperavam reencontrar entes queridos ou oportunidades de trabalho em cidades e vilas distantes, bem como deixá-las ou retornar a elas, viam-se obrigados a largar os afazeres diários (sempre muitos, fosse no seringal ou na serena vida independente do ribeirinho) e deitar-se na rede, aguardando dias ou até semanas a bordo, rio acima, ou abaixo, até encontrar seu destino. O que nos leva a pensar, à rede que balança carinhosamente a cada banzeiro, que talvez, e muito provavelmente, o destino seja justamente o viajar, navegar sendo tão preciso, tão agradável e seguro, a bordo de um Recreio, a jogar cartas, dominó, prosear ou simplesmente dormir e descansar, que viver não é preciso.
Ao passar dias a bordo, conhecendo meninas bonitas ou homens interessantes, e muitas vezes casando-se ou namorando com eles por longos anos, os passageiros vivem a terceira margem do Rio: consagrando seu fluir existencial, que se dá em função da água que comunica e toca a tudo e todos, eles se deixam estar, recreando, dedicando-se a diversas formas de entretenimento e lazer (o que dá força ao nome amazonense para as antigas gaiolas, que no Amapá e no Pará são denominadas, hodiernamente, apenas de navios).






Constituindo, assim, verdadeiras ilhas de sociedade (e sociabilidade), de Cultura, que se movem elegantemente em meio à Natureza, singrando elegantemente os mais comoventes veios amazônicos, os Recreios prestam às cidades, vilas, e comunidades, o mesmo serviço que lhes prestavam os antigos vapores e batelões de marreteiros: comunicam, trocam, equalizam informações, paixões e desilusões epistolares, escoam a produção de aqui para ali, de cá para acolá. O Recreio que corta o ignoto mundo amazônico nas noites estreladas é uma ilha de luz que baila sobre as águas, em festa, deixando a tolda ou a popa do convés superior ao arrastapé, ao forró, à “bagunça”: havia antigamente trios que jogavam ao vento notas musicais de forró tradicional; atualmente há imensas caixas de som que executam em alto e bom som o mais agitado e recente forró, o mais popular techno-brega, o mais acelerado melody, ao passo em que o conhaque, a cachaça, a cerveja e os ensopados de músculo ou tracajá, deliciosos e apimentados, matam a fome.




Nesta imensa trama de relações aquáticas, transpondo calhas, ligando mundos (se queres ver algo de universal, volta os olhos para tua aldeia, já dizia Guimarães Rosa), os Recreios cruzam histórias, fundem trajetórias pessoais, ensejam casamentos, namoros, ataques do matreiro boto, negócios, e levam aos mais distantes (embora tudo seja uma questão de perspectiva) locais os fios da sociedade, qual uma Penélope que, delicada mas decidida, enciúma-se por fim do Teseu que deixou-a para ir ao seringal em cujos meandros reina o Minotauro do capital extrativista de acumulação (essa sim a única primitiva e selvagem) e decide navegar, ela mesma, em festa, noite adentro, percorrendo os traçados que Ariadne espalhou no labirinto dos rios.





[1] Extraído de livro homônimo ainda em revisão.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Resíduos e Resquícios - A vida que poderia estar sendo mas não está

Originalmente publicado na Revista Piseagrama, edição 05, "Descarte"
http://piseagrama.org/artigo/1135/residuos-e-resquicios-rio-amazonas/

Resíduos e resquícios
Bruno Walter Caporrino[1]

Sobre as águas. Assim, simplesmente. Nunca contra as águas, e nem mesmo a favor delas, porque com elas, nelas. É assim que se constroem as vilas e comunidades que se espraiam pelas restingas, furos, voltas, paranás, lagos e rios da bacia amazônica: sobre as águas, em função das águas, ao ponto de ser possível dizer que a vida das populações ribeirinhas se define conscientemente em sua relação com o universo água que contamina, liga e afeta tudo na Amazônia.


Muitos pensam, até hoje, que o universo amazônida é pautado pela escassez, enquadrando as imagens das casas ribeirinhas, seus jiraus e pontes em uma moldura significacional e simbólica que cai por terra (ou melhor, vai por água abaixo) quando confrontada com a realidade múltipla e vária que esse jeito de viver, estar e pensar o meio apresenta através das vilas, casas e embarcações.
A história da ocupação da Amazônia é prenhe de provas de que o modelo urbano que emerge dos feudos europeus trazendo consigo valores e modos de produção pautados pela sedentarização, centralização e domesticação – e, portanto, dominação ­– de uma natureza entendida como matéria inerte e inanimada é, apenas, como todo modelo, um dentre muitos possíveis. Mostra também que os retirantes nordestinos que deixaram a seca para sobreviver num universo pautado pela água em seu grau máximo são os mais hábeis artífices do que nos define como homens: a capacidade de lidarmos com as gentes e com a matéria do mundo de um modo dialético que nos permita adaptá-los a nossas tramas conceituais sem contudo moldá-los ou retalhá-los às nossas.
A ruptura ocidental entre Natureza e Cultura, esse par cartesiano que é o mito fundador de nossa cosmologia, faz pouco sentido na mente dos valentes exilados da seca que, obrigados a conviver com tantos Outros (gentes tão diversas, bichos que são gente, ou seja, animais que são animados e, portanto, agentes), de modo que aprenderam com os indígenas a entendê-los sob outras modalidades de relação pautadas por sua vez pela ideia de que todo ser vivo é dotado de alma (é animado) e que alma é exatamente a capacidade de entender, apreender, perceber, interagir e, sobretudo, agir.



Isso se revela de forma concreta e tangível no modo como essas pessoas constroem suas casas, produzem sua comida, plantam suas roças, extraem seu açaí, cobrem suas casas com palha de ovi ou buçu. Disso decorre que a vida ribeirinha não é uma vida “às margens”: eles não estão às margens do “progresso” e da “civilização” simplesmente porque são uma civilização em função de suas interações com todas as outras civilizações com as quais com-vivem. Seu viver não é nem uma luta árdua contra, nem uma ode bucólica à “natureza”, simplesmente porque essa não existe: tudo, na vida ameríndia, cabocla e amazônida, é cultura.
O caso das áreas de ressaca na cidade de Macapá é uma metáfora real e concreta de como o encontro entre cosmologias e, portanto, modos de produção e entendimento da vida é o real mote da história humana da Amazônia, ao demonstrar como jeitos de ocupar o espaço, produzir e descartar a vida podem ser diversos e que não há um modo universal melhor do que os outros, se pensamos em adaptação e não em evolução, quando almejamos nos desenvolver como sociedade.
Trazendo consigo a modalidade de relação com o rio e com o universo amazônico, os ribeirinhos e caboclos que foram atraídos para Macapá a partir da década de 1950 passaram a exercer ali suas maneiras de viver e pensar ao habitar os rios, lagos e áreas alagáveis conhecidas como ressacas, construindo casas sobre jiraus (palafitas). Mas a vida às voltas com uma cidade pensada e realizada de acordo com valores e modalidades de entendimento urbanos ocidentais, que encontra no burgo seu arquétipo e nas metrópoles a sua obra-prima, exigiu que essas populações adaptassem uma vez mais seu modo de vida já tradicional com plasticidade tal que o resultado é uma incrível interação entre modalidades de relação aparentemente opostas.
As áreas do território de Macapá regidas pelo regime das marés do Amazonas são áreas baixas por onde o rio adentra a cidade, como numa metáfora sorrateira do modo como a Amazônia sempre se ri da tendência ocidental de dominar e domesticar isso que seria a Natureza. Aos caboclos coube, portanto, a astúcia de adaptar seus modos de pensar-se e lidar com o espaço edificando, em madeira, verdadeiras vilas ribeirinhas sobre jiraus nas quais o rio e o córrego são a rua, e as palafitas se estendem ligando casas e formando praças sem qualquer planejamento que não o individual, num exercício pleno e autônomo de cidadania que consiste em deixar que a cidade se faça a si mesma através das mãos e engenho dos próprios cidadãos.

Assim, em áreas como Congós, grandes extensões do Aturiá, do Igarapé das Pedrinhas e do Canal do Jandiá, populações ribeirinhas construíram verdadeiras polis onde interagem homens e onde estes interagem com o rio, suas marés e vontades de forma dialógica e vária, transpondo para o âmbito urbano modos ímpares de entender o espaço, o tempo, a vida e seu fabrico. Repletas de “pontes”, essas áreas são ocupadas por casas ribeirinhas ligadas e muitas vezes assistidas por um igarapé, canal ou baixio alagável (a ressaca) que permite que os barcos e canoas substituam os carros e motos, que são a realização máxima do modelo urbano ocidental.
Todavia, àqueles que pensam que as áreas de ressaca são um problema (como o Estado, esse leviatã estatístico e homogeneizante), as comunidades das ressacas constituem desafio por serem justamente uma provocativa solução. Longe de serem invasões, como se alega cotidianamente, são modos de entender o espaço a todo momento invadidos pelo modelo urbanístico caótico pautado pela expansão desenfreada, orquestrada pela “mão invisível” de concreto e alvenaria, pela ignorância completa das necessidades e sobretudo potencialidades do meio no qual se inserem e com o qual lidam.
Em vez de invadir, essas comunidades estão sendo invadidas, cercadas pela especulação imobiliária e por projetos do Estado que, não sendo voltados a beneficiar o cidadão mas sim o Capital, ignoram completamente os modos de vida e organização das pessoas que, morando nas ressacas, provam ao mundo inteiro que é possível com-viver com o rio, estar com ele em constante diálogo e interação.
Diante da incapacidade do Estado de ouvir e entender, as comunidades remanescentes das áreas de ressaca são cercadas por avenidas barulhentas e assoladas pelos problemas decorrentes da aglomeração urbana para os quais seus moradores ainda não conseguiram encontrar soluções mas que, dada a plasticidade de suas visões de mundo, poderiam conseguir, se o Estado não os disciplinasse a entender-se a si mesmas como um problema ambiental e, sobretudo, um problema legal e social.
Ao preconceito dos moradores de Macapá que enxergam as comunidades de ressacas como resquícios do atraso e da primitividade contra a qual a cidade copiada dos modelos fracassados da urbanização ocidental seriam erigidos como um monumento, assoma-se a falta de iniciativas do Estado e, por fim, a grave falta de auto-estima dos moradores que passam a se entender a si mesmos como invasores, atrasados, favelados, marginais. Por conta disso, o modelo de apropriação do espaço coletivo, pautado nas comunidades ribeirinhas pela interação com o meio e articulado pelo debate entre os seus entes constituintes, é isolado e minado.
A tradicional modalidade de relação com o que deve ser descartado, com aquilo que não se deseja mais, típica das sociedades ameríndias, passa de solução a problema: nas comunidades indígenas tradicionais, tudo o que se produzia, produzia-se para si com aquilo que era simplesmente extraído ou dado pelo meio. Lembremos os artefatos produzidos com tecnologia compartilhada por todos os membros dessa sociedade: a vida é, nesse sistema, produzida por si mesma, para si mesma, sem intermediários como o dinheiro (equivalente universal) ou o patrão, num compartilhamento pleno de saberes e técnicas. Todos sabem fazer tudo o que precisam. Os produtos extraídos meio, tais como peneiras, abanos, cestos, casas e barcos eram facilmente deglutidos pelo próprio meio, bastando jogá-los ao rio assim que não fossem mais ser utilizados.
Uma vez que bastava jogar ao rio um produto inutilizado e pronto, é comum visitar comunidades ribeirinhas e ver as pessoas descartando toda sorte de coisas de suas embarcações e casas assim que a maré sobe. Nas comunidades de Afuá, Gurupá, no Bailique, é comum encontrar praias onde o rio acumula toda sorte de artefatos, como matapis (estrutura de palha trançada em formato cilíndrico para aprisionar camarões), esteiras, cestos, tábuas serradas. As crianças se divertem nesses ambientes em um exercício arqueológico muitas vezes engraçado, a gritar “olha! A panela da Velha Pobre”, apontando para uma cuia quebrada, e fazendo referência à Serra da Velha Pobre, próxima a Almeirim, sobre a qual costuma-se dizer que costumava errar pelas vilas e comunidades catando toda sorte de artefatos para re-criá-los e, assim, dar-lhes novo significado e existência.
Não é de lixo que se trata, mas de objetos descartados que, ao deixarem de ganhar significação e uso para os homens, passam a perder seu encantamento, e tornam a ser palha, fibra, madeira. O hábito de deitar ao rio toda sorte de resíduos orgânicos tem origem nessa mesma modalidade de relação, e, como é comum dizer-se, atrai os peixes para mais perto do jirau, de modo que a belíssima compreensão de Lavoisier realiza-se nesses contextos como em nenhum outro: nada, absolutamente nada, se perde. Tudo se recria. Basta, portanto, extrair, transformar, e, depois, descartar.
Mas, tal como o modo de produção da vida ocidental influenciou a ocupação do espaço, a condução e equação da vida econômica e simbólica, ele também proporcionou mudanças bruscas no modo como se produz, utiliza e descarta utensílios. Longe de poder simplesmente jogar pela janela o material confeccionado para usufruto próprio com a matéria do próprio meio, devolvendo-o a ele, agora, com cada vez mais produtos manufaturados introduzidos na vida ribeirinha, agora as pessoas se veem obrigadas a acumular dentro de suas casas toda sorte de material que antes bastava descartar.
“Fazer o quê não é? Essas coisas são todas duras. Duram muito mais, mesmo quebradas. A gente joga do catrario, do navio, do iate, porque não tem condições de levar com a gente a bordo. Veja o senhor: esses cestos todos que a gente usa para carregar o caroço do açaí. Eles se acabando, vão tudo para dentro do rio, mas é palha, se acaba na hora. Essas coisas de plástico, essa lixarada toda aí de cidade, isso o povo tem que aprender ainda a usar”, diz Seu Inácio, que vem semanalmente à Macapá à bordo de sua lancha vender o açaí que retira de sua comunidade, no rumo da baía de Afuá. No caso, Seu Inácio se refere ao azafamado porto do Igarapé das Mulheres, onde encostam embarcações de pequeno e médio porte que ligam a metrópole às vilas e comunidades e onde esse choque de modelos se revela no acúmulo de lixo no leito do pequenino estuário.





Quando objetos diferentes, que materializam diferentes modos de produção da vida, de divisão do trabalho, e de relação com a matéria do mundo, encontram-se com esse jeito de viver e com esse comércio do tempo e do espaço, o lixo passa a ser, então, um dos problemas mais imediatos postulados pelo processo de acumulação das pessoas nas áreas de ressaca e no entorno dos baixios e igarapés.

Devemos lembrar, entretanto, que essas comunidades são na verdade vítimas em vez de algozes: pululam iniciativas das próprias comunidades para coleta e tratamento de seus resíduos sem apoio algum do Estado. Muitos se organizam em mutirões semanais, detectando os canais por onde entra mais o lixo e os vedando com telas e grades. “Aqui no Jesus de Nazaré, a gente se organiza sem se reunir. Sozinhas as pessoas sabem que têm que levar o lixo lá para a rua de acesso à ponte. É muito comum os vizinhos juntarem o lixo aos domingos, ouvindo um som, assando um peixe (risos). É uma questão de educação, não precisa reunir. Cada qual sabe seu fazer. Mas o lixo que fica aqui não é a gente que joga não, por isso que eu falo: ele vem todo com o vento, no verão, e com as enxurradas, no inverno”, diz dona Nazaré, moradora da área desde que começou a ser ocupada, há mais de 40 anos, em depoimento colhido num ensolarado domingo em que, recolhendo as garrrafas PET e sacolas plásticas que flutuavam defronte e debaixo de sua casa, ela e a vizinha abateram uma moreia cuja gordura usariam para fazer pomadas.
“Aqui no Perpétuo Socorro, a gente se criamos desde meninas. Meu pai pescava, e meu avô era carpinteiro naval. Tudo aqui era bairro de pescador. Não era essa sujeirada toda não. Antes, tinha era mato. Aparecia até cobra dentro de casa. Tem o caso do Anísio porre, que dormiu no jirau e acordou abraçado com sucuriju. As pessoas ouviram-no murmurar palavras de amor, e foram espiar, de gaiatice, porque ele era viúvo há muitos anos. O susto foi grande quando viram a bicha toda enrolada nele. Tinha bicho, tinha tudo, só não tinha era sujeira. Meu avô criou tracajá e jacaré na porta de casa até bem pouco antes de morrer. Não tinha prefeitura, nada. Mas cada qual cuidava do seu pedaço. Hoje isso aqui parece que inchou, tem gente um em cima do outro, é barulho, é briga, é lixo. Antes não era assim não”, enfatiza Dona Nita, simpática moradora do Perpétuo Socorro que prega o evangelho todos os domingos na penitenciária estadual e faz parto nas comunidades do entorno de Macapá.

Vemos assim que grande parte do lixo que flutua nas áreas de ressaca vem não dos moradores dessas áreas mas das ruas, córregos, galerias fluviais e lixeiras da cidade seca que as envolve. O vento e as chuvas arrastam para os canais e igarapés toda sorte de lixo que vem do asfalto, sendo um problema tanto ambiental quanto social porque as comunidades se veem obrigadas a conviver com os detritos sob suas casas. Para além das doenças e do desconforto provocados pelo acúmulo de lixo, as comunidades que criam tracajás e peixes no quintal de casa sob as pontes sofrem o preconceito vindo daqueles que justamente sujam suas áreas e os taxam de marginais sem higiene e boas condições de vida.
O caso do lixo nas áreas de ressaca de Macapá demonstra com clareza que as gentes e coisas interagem de forma ativa e que modelos de ocupação do espaço podem com-viver entre si, conquanto haja vontade política dos cidadãos para entender que as áreas de ressaca não são um problema, mas sim uma solução, e que os moradores têm respostas concretas a dar sobre o problema. “Teve um monte de estudante aí que veio aqui, de uma faculdade, querer ensinar a gente a cuidar do nosso lixo. Tinha que ver, as meninas, tudo de salto alto prendendo nas pontes, falando que a gente suja tudo, que querem nos ajudar a recuperar os impactos ambientais de morar aqui. A gente não é bicho não, isso aqui não é zoológico: a gente cuida do nosso lixo, o asfalto é que não cuida do dele, e a gente que paga o pato”, diz Seu Walmir, carpinteiro naval em Santana.



O lixo que assola essas comunidades é um exemplo concreto do modo como a cidade ocidental e o modo de produção da vida que se elogia como monumento é cego, surdo e falido.
Talvez seja possível dizer que, sob essa ótica, lixo é o jeito como produzimos a vida nas modernas sociedades industriais urbanas, pois o lixo não é outra coisa além do que nós mesmos nos esforçamos para fabricar com empenho, engenho e técnica, e que depois descartamos. Nesse sentido, desenvolvimento consistiria justamente em produzir a vida e não o lixo, descartando aquilo que pudesse ser transformado sem se perder, ou reutilizando aquilo que nós produzimos de modo tal que o meio não consegue absorver.
Se pensarmos nisso sob a ótica do desenvolvimento, não haverá dúvidas de que o jeito ribeirinho, indígena, e caboclo, de produzir a vida e descartar produtos é mais eficiente, e tecnologicamente desenvolvido. Mas os produtos inorgânicos não serão abandonados: será necessário, então, fortalecer a organização local das pessoas, valorizar as boas práticas que já existem, e, sobretudo, mudar o que não são hábitos, mas aspectos de uma visão de mundo diferente.



[1] Bruno Walter Caporrino é antropólogo de formação e  indigenista por profissão junto ao povo indígena Wajãpi, no Amapá, pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, Iepé.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Belo Monte - Anúncio de uma guerra & Crônica é a guerra anunciada (releitura)

A quem não teve a oportunidade de assistir, recomendo veementemente: assista, vale muito a pena. E solicito que repasse divulgue, sobretudo àqueles que já acreditam ter uma opinião formada (contra ou a favor) de Belo Monte e acerca dos direitos indígenas tão duramente agredidos pelas manobras ruralistas no âmbito do governo soviete que, como tal, surgiu no pátio das fábricas e sonha "industrializar"o mundo.

Segue a sinopse oficial do filme:


“BELO MONTE, ANÚNCIO DE UMA GUERRA”
Documentário sobre a maior obra de engenharia do país da atualidade, na qual depoimentos a favor e contra Belo Monte apontam para um desastre do ponto de vista ambiental, econômico e social.
Belo Monte é uma usina hidrelétrica que o governo pretende instalar no coração da Amazônia, na Volta Grande do rio Xingu na cidade de Altamira, Pará. O documentário “Belo Monte, Anúncio De Uma Guerra” é um projeto independente e coletivo a respeito desta obra, que foi filmado durante 3 expedições à região do rio Xingu. Trata-se de material riquíssimo sobre os bastidores da mais polêmica obra planejada no Brasil, com imagens de alto impacto e entrevistas com os principais envolvidos na obra, incluindo lideranças indígenas (como o Cacique Raoni e Megaron), o Procurador da República (Dr. Felício Pontes), o Presidente da FUNAI (Márcio Meira) e políticos locais a favor da construção da Usina.


Trabalhando com os Wajãpi, certa vez deparamo-nos com um episódio típico, e, infelizmente, corriqueiro, em que agentes do Estado, desinformados, mal-formados, impuseram goela abaixo dos caciques a edificação de um linhão em sua terra, contrariamente ao que eles sempre haviam decidido historicamente. Por conta disso, iniciou-se um debate interno sobre o quanto aceitar isso seria trair o movimento indígena brasileiro e, para auxiliar nos debates internos, livres, dos Wajãpi, produzi dois pequenos filmes.

Com base no filme "Belo Monte - anúncio de uma guerra", feito de forma colaborativa, editei um pequeno Clip, usando as imagens do filme, e trilha sonora de Deep Purple, realizando assim uma muito antiga idéia que sempre me veio a mente quando debato a política indigenista atual: nunca consegui deixar de pensar em Child in Time. Para quem quiser assistir o Clip, que intitulei "Crônica é a guerra anunciada":

http://www.youtube.com/watch?v=iQBTmHdkruQ

domingo, 29 de dezembro de 2013

Prova cabal: Afuá, a ilha-modelo

Leibniz e Darwin na Amazônia
(Publicado em: http://urbania4.org/2012/12/12/leibniz-e-darwin-em-afua/)
Bruno Walter Caporrino[1]
Quem chega à Macapá por aeronave (um dos únicos meios para quem vem de longe) e tem a sorte de chegar nos únicos dois vôos que aterrissam à tarde, tem o incrível privilégio de, tendo partido de Belém, sobrevoar e contemplar do alto os campos alagados e as ilhas do arquipélago de Marajó, onde a hercúlea mata amazônica, repleta de grandes sumaúmas, angelins e de todas as mais belas variedades de palmeiras, se abre respeitosamente, reverencialmente, através de incontáveis canais, para que o rio corra, cortando-a, rumo a seu grande fim (finalidade e término): o encontro com outro gigante, o Atlântico.
Aterrissando, desembarca para a pista abatida por tórrido sol, em especial nos meses de verão, e caminha até a modesta sala de embarque do pequenino aeroporto. De lá, mesmo que parta para o recém-inaugurado hotel-padrão, climatizado e geneticamente igual à todos os da rede, ou que vá aos mais tradicionais (tendo a sorte de ganhar uma vista para o Rio Amazonas, no Santa Inês), o visitante não percebe que chegou à uma cidade amazônica.
O mesmo não ocorre ainda nas cidades amazônicas, por maiores e mais cosmopolitas, metropolitanas (para o bem e para o mal) que sejam: mesmo que em Belém ou Manaus shoppings e equipamentos urbanos padronizados os haja em quantidade, a feição dessas cidades, o aspecto e o portar de seus transeuntes, a trilha sonora e os odores e cores, sabores e produtos que tomam as ruas, são únicos, e revelam que o viajante que flana por suas ruas e avenidas encontra-se numa cidade incrustada no meio da Amazônia, de modo que, se a cidade invadiu, tomando de assalto a selva, esta dá o revide e a invade (especialmente na Manaus do inverno, onde o Negro toma de volta tudo o que lhe é de direito).
Mas Macapá é uma capital amazônica sui generis. A começar pela estrutura de sua trama viária, extremamente retilínea e quadrangular, revelando forte e racional planejamento calcado na idéia de tábula rasa, passando pela largura destas avenidas e das possíveis calçadas (que quase nunca se realizam como tal), o viajante só se lembra que está numa cidade amazônida quando, seguindo uma dessas retas avenidas, esbarra com o Rio em toda sua magnitude, e pode contemplá-lo ao lado de seu belo vigia: a Fortaleza São José de Macapá. Àqueles intrépidos que a cidade dá o privilégio de permanecer por mais de alguns dias ou meses, residindo na cidade, é facultado o prazer da descoberta (como ocorre em toda cidade, aliás): e se depara com as casas de madeira avarandadas, pequenas, sobre palafitas, em plena região central; as pontes, também de madeira, esguias ruas de palafitas sobre “os baixos”, as “ressacas” que o Rio alaga quando o Mar, um tanto sentimental, barra-lhe as investidas com a cheia de sua maré.
Mas vagar pelas “pontes”, ao mesmo tempo em que é uma experiência inenerrável, permite ao observador atento assombrar-se com a cisão entre natureza e cultura consagrada pelo Urbano moderno, mas de uma forma incrível por Macapá: ao lado das edificações com ares modernos, todas envidraçadas, climatizadas, imitando o estilo pomposo-empresarial dos grandes prédios que assediam cidades como São Paulo, existem terrenos baldios abandonados não só ao mato como à especulação mais aguda, atrás dos quais se vê belíssimos, apaixonantes, buritizais alagados que filtram o sol em toda sua dureza, permitindo que se coe por suas folhas e esbarre no fino espelho d´água que os sustenta e reflete, reproduzindo-os.
Moradores da cidade há, no entanto, que nunca provaram um pedaço de pirarucu. Que desconhecem a diferença entre um tucunaré e um surubim. Que não sabem a diferença entre uma bacabeira e um pé de açaí. Dentro de suas modestas edificações (todas climatizadas), eles se valem de um ideal de urbanidade e de progresso tão cruel quanto exótico, e, devo dizer, nocivo: longe de podar as agradáveis mangueiras que proliferam pela cidade acolhendo os transeuntes sob sua sombra alegre, dando-lhes frutos doces gratuitamente como num sonho rousseauniano, eles as “toram”: cortam, extirpam, eliminam.
O “mato” que invade os arredores das casas cobertas com escaldante amianto (símbolo tradicional de status na Amazônia inteira, à época em que, saídos dos seringais os hoje caboclos ainda construíam suas elegantes habitações com cobertura de palha) é simplesmente subsumido, e as avenidas e ruas, impressionantemente largas, que poderiam ser tomadas por mangueiras e cheirosos pés de cupuaçu, são assoladas pelo sol mais equatorial do Brasil (já que Macapá é a única capital cortada pela linha do Equador). Isso faz de Macapá uma metáfora do Brasil: como no poema Pneumotórax de Manuel Bandeira, toda uma vida que poderia ter sido, e não foi.
Assim como o Brasil parece ter se desenvolvido de costas para a América Latina, contemplando primeiramente a Europa, e depois os Estados Unidos, com avidez, Macapá parece ter crescido de costas para a Amazônia, contemplando com inveja, pela televisão, os grandes centros urbanos. Edificada em torno da Fortaleza São José de Macapá, a cidade possui uma história tão singular quanto o Estado, que até 1988 era território federal. Erguida sobre um platô alto cerca de 2m de altura em relação ao Rio, ela se espraiou por um bioma que poucas pessoas sabem que existem na Amazônia: o cerrado. Povoada por forasteiros que se relacionaram de forma colonizadora com os indígenas e recursos locais, a região toda foi tomada de pronto por garimpeiros febris por ouro e madeireiros ávidos pelas cédulas que cada folha poderia produzir.
Em Macapá houve um processo contrário ao que houve na cosmopolita Manaus: recebendo incentivos fiscais e injeções fenomenais de capital estrangeiro, a capital do Amazonas viveu era de ouro com o ciclo da borracha (extrativismo, de certa forma), que levou para o meio da Amazônia retirantes flagelados escravizados para que, no Theatro Amazonas, as classes favorecidas pudessem apreciar belas óperas, e gozar a fresca ouvindo gramofones ao apreciar suco de graviola e cupuaçu em suas varandas neo-clássicas. As interações entre os europeus, os japoneses, os nordestinos seringueiros e os indígenas foram se consolidando historicamente de modo a criar uma cultura e uma espacialidade afeita ao contexto, própria a ele, e que se reflete na cidade: cosmopolitismo.
Isso não parece ter ocorrido em Macapá. Ponto de passagem dos garimpeiros que desbravavam os rios pedregosos e de difícil navegação, a cidade encontrou no ouro extirpado das entranhas da terra e na mata deitada abaixo suas únicas fontes de recursos, coroada pela mineração que instalou-se com peso no estado em fins da década de 1970.
O modelo trazido pelos empreendedores da cidade de Macapá foi o da urbanização ocidental predatória, que encontra na cisão natureza/cultura sua pedra de toque: ser índio é ser subdesenvolvido, e morar “no mato” é sinal de involução, atraso. Almejando a evolução, instalou-se no cerrado uma metrópole que, de costas para o Amazonas, mas invadida por ele em suas entranhas, por suas terras baixas, luta como um Sísifo contra cada hera, cada liana, cada árvore, rumo ao progresso, esse mesmo ideal que fez com que, em Progresso, no Mato Grosso (como escreveu Wellington Cançado na edição 2 de Piseagrama), todos os pequenos arbustos da tórrida avenida central fossem extirpados, em nome da urbanização e do Progresso.
Eis porque Macapá, consagrando a estrutura do pensamento de um tempo e de uma sociedade (como toda cidade), pode ser tomada, assim como Progresso-MT, como mais uma maquete em escala real dos valores e posturas epistemológicas das classes dirigentes, pois é nisso que consiste uma cidade: uma fotografia da estrutura de pensamento e das relações sociais que a subsidiam e que ela subsidia, dialeticamente.
Deixando Macapá de barco, deitando-se agradavelmente na rede sobre o convés superior, num elegante recreio, tem-se a sensação de que a negação da “natureza” (e de seus habitantes) em nome da “cultura” (ou seja, do Progresso e da Evolução que culmina em metrópoles que têm nos shoppings a realização máxima dos burgos, (que são a gênese das cidades modernas), percebe-se que tudo o que rodeia e invade a cidade por suas baixas periferias é Amazônia, e a bela e preciosa cultura que nela e por ela desenvolveu-se.
Chegando ao pequeno município paraense de Afuá, sofre-se um choque. Construída completamente sobre palafitas, em madeira, a pequenina e belíssima cidade marajoara é a realização de um modo de viver e relacionar-se com o meio, com o contexto amazônico, de forma inteligente e aperfeiçoada. Orgânica, em todos os sentidos que o termo possa assumir. Pelas “pontes” de madeira que são palafitas, passeia-se de bicicleta (única e exclusivamente, já que o tráfego de veículos automotores é ali proibido por lei municipal) por entre as belíssimas casinhas avarandadas, todas de madeira, pintadas das mais diversas cores, onde o esmero na construção e na decoração revelam a presença cabocla, pois a casa cabocla é tradicionalmente um símbolo de zelo, limpeza, frescor e cuidado.
Assim como nas pequeninas e acolhedoras comunidades ribeirinhas que se espalham pela Amazônia, Afuá é uma ode à vida amazônida: construída sobre as águas do rio que tomam a cidade na maré alta sem mitigá-la, ela convive com o meio, fixando-se nele de forma volátil e, por isso mesmo, perene, ao demonstrar que seus habitantes não apenas conhecem-no muito bem, como fazem um pacto com ele e, aceitando suas regras, lidam com elas naturalmente: cultura. Orgânico.





Das pequeninas varandas das casas entrevê-se o soalho enceradíssimo e reluzente onde crianças se refestelam, descalças no calor da tarde, a comer todas juntas um pedaço de filhote, peixe pescado pelo próprio pai que acabara de retornar com seu elegante batelão com motor-de-centro. Todas comem do mesmo prato, assim como sói nas sociedades indígenas amazônicas. E na casa cabocla.
O esmero da comunidade em zelar, cada qual por sua casa, e todos pelas vias públicas, onde elegantes lixeiras acolhem os detritos devidamente ensacados a serem recolhidos pelo lixeiro – que pedala – permite que se perceba um senso de urbanidade e comunidade que só se encontra nas referidas comunidades ribeirinhas.
Da beira onde se amontoam as belíssimas e delicadas, mas valentes e portentosas embarcações (recreios, batelões, catraias) de madeira, contempla-se o sol que se põe na mata que jaz quase intacta – nunca virgem – há poucos minutos desta cidade que desenvolveu-se a partir de uma vila ribeirinha e que assim soube se manter.
A antropologia contemporânea nos ensina que não há mata virgem: a Amazônia é um grande jardim cultivado por mais de 5.000 anos de contatos e convívios humanos, e a própria dispersão de muitas espécies vegetais e animais se deve justamente à presença humana. Se às sociedades indígenas, em função de seu modo de produção extrativista, foi permitido interagir com este bioma de forma a, mais do que não extingui-lo, cultivá-lo, aos ocidentais que tentaram colonizá-la, domá-la, foi relegado o mais cruel fracasso.
Quantos Fitzcarraldos não pereceram por estas bandas após verem suas quimeras urbanas, civilizatórias, tragadas por aquele mesmo componente que tentaram negar ao domar: a natureza?
Em Afuá, passeando pelas estreitas palafitas que são as ruas, sentando-se nas praças, todas de madeira, sobre as águas, dormindo-se na rede, sente-se o frio típico das regiões onde ainda há mata. Todas as habitações e embarcações são construídas de modo a lidar, conviver com a água que é, assim, o motivo e ponto de partida e de chegada de tudo. Em Macapá, ao contrário, é impossível andar à pé, triunfando o modelo urbano das metrópoles que anulam o espaço público a bem do triunfo do privado: há asfalto (escaldante), para os carros (climatizados), mas não calçadas, para os pedestres.















Uma comparação se faz, então, possível, tendo-se como eixo os modelos de acordo com os quais cada uma dessas cidades, tão próximas mas tão distantes, desenvolveu-se, tendo-se como eixo o modelo de relações (sociais, sobetudo) que subsidia a cada uma: ao negar a natureza, Macapá pretende-se Progresso, evolução; atende a princípios finalistas, ou seja, pressupõe em cada esquina, ou obra particular, a idéia de que tudo deve tender à evolução, ao progresso, ao urbano ocidental moderno, metropolitano.
Ao aceitar a Natureza, por seu turno, Afuá realiza-se como cultura por uma outra via: os homens vivem sobre as águas, constroem seu meio ambiente (e este é outro componente da definição que podemos dar de uma cidade, ou seja, um ambiente construído pelos e para os homens) sem negar o ambiente natural no qual estão inseridos: vive-se em função da Amazônia, em Afuá, uma urbanidade natural, coroando o ideal de adaptação, e não o ideal finalista de progresso e evolução, já que este último, como nos demonstra a antropologia há anos, é um ideal etnocêntrico que impõe o modelo europeu ocidental de homem e relação, modo de vida e de produção (mercantilista, industrial), desclassificando todas as outras modalidades ao considerá-las subdesenvolvidas, atrasadas.
Mas, se buscarmos a origem epistemológica do próprio ideal de progresso e finalismo em um de seus expoentes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), encontraremos a tese de que o mundo em que vivemos é o “melhor dos mundos”. Leibniz pretendia com isso que o mundo que vivemos é a realização da consciência de um deus arquiteto que criaria tudo numa linha histórica que tendesse ao aperfeiçoamento, à evolução: ou seja, à perfeição, à si mesmo, portanto.
Mas, errando por Afuá, tem-se a sensação de que a tese de Leibniz poderia ser muito melhor aplicada à uma cidade se fizéssemos o exercício de, juntamente com Charles Darwin (????-????) entender a vida, em sua totalidade, como um constante processo sincrônico, e não diacrônico, de adaptação (ao contrário de evolução e progresso): segundo Darwin, que nunca mencionou a palavra evolução, os seres adaptar-se-iam aos contextos, tornando-se perfeitamente eficientes e afeitos a eles, cada um a seu modo, não havendo uma série histórica que tendesse a um fim, mas sim uma sucessão de contextos repletos de seres extremamente adaptados a eles, ou seja, perfeitos, permitindo que se contemple a vida em todas suas mais variegadas manifestações, sem superpô-las umas às outras de acordo com o ideal de que, quanto mais humanas se pareçam, mais evoluídas serão.














Segundo esta concepção, poderíamos extirpar o finalismo da análise, e entender os seres, as culturas, e as cidades, como perfeitos construtos que, como pretendeu Leibniz, são da forma que são (e não de tantas outras infinitas formas possíveis) porque uma série de fatores concorreu para tal, configurando-se, assim, como os melhores mundos. Possíveis: adendo importantíssimo.

Retorna-se então, de Afuá, com a plena sensação de que aquela é uma cidade plena: totalmente afeita ao contexto em que se insere, ela é um contexto onde uma série de relações são perfeitamente afeitos a ela, encontrando-se em um estado de adaptação e sustentabilidade que Macapá e outras metrópoles não encontram, porque não são sustentáveis, e porque são sustentadas e sustentam um modelo de compreensão do mundo e do espaço urbano que tem uma única finalidade: o lucro, a mercantilização, a acumulação de capital, à revelia das pessoas, e do espaço.






[1] Bacharel em Ciências Sociais pela USP, é fotógrafo amador e, pós-graduado em indigenismo, atua como indigenista junto ao grupo tupi Wajãpi, no Amapá.