.

.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Eu sou a selva em que transformastes minha floresta



Crédito da fotografia: Bruno Walter Caporrino

texto publicado originalmente em maio de 2014

As rajadas de chuva levantavam a palha de ubim, aspergindo o interior da casa com gotículas frias, quando João pegou o guarda-corpo de encerado, amarelo, e soprou o pavio do lampião à querosene. De súbito, o ambiente escurecido da casa, até então lambido sofregamente pelas sombras móveis projetadas de maneira lisérgica pela labareda, tornou-se taciturno, comunicando-se com sua alma.

--- Na volta tu traz mais querosene, pai?
A voz fina e anasalada de Maria era terna, e penetrou o coração de João. O vagido de Rita, pedindo o seio exausto da mãe, despertou-o do torpor.

--- Trago, filha. Bora ver se hoje me pagam a jorna.
Ao pisar o primeiro degrau da escada que levava do jirau de paxiúba da casa ao chão enlameado, lavado pela chuva que caía em bátegas, sentiu um estremecimento. O degrau, sempre solto, quase deitou-o ao chão, e só então realmente acordou. “Égua, que não vai parar de chover, não?”. Mas tranquilizou-se ao deparar-se com a mudança na luminosidade, que anunciava o afinamento da camada de nuvens. Estranho mesmo chover assim em agosto. Mais tarde, certamente, estiaria, e, então, o mormaço tornaria a lida no eito quase insuportável.

Lembrou-se de quando, ainda em Gurupá, remava sob forte chuva, dias seguidos, na apanha de açaí, e de quando voltava, jovem, portentoso, com dois matapis cheios de camarão, dois paneiros de açaí, apresentava à Maria o filhote que ainda agonizava, movendo as guelras, no fundo da canoa. Não era ruim tomar aquela chuva, afinal. Recém-casados, pouco tinham, mas eram donos de tudo. “Mas tomém, lá não tinha energia, hospital... foi melhor ter vindo”, pensou.
O percurso até a doca, tomado de lama, ainda não contava com o mundaréu de pontes que hoje lá encontramos. Estamos em Santana, e João da Mata Furtado de Araújo segue para a doca onde descarregará trilhos de ferro do navio de bandeira estadunidense Mormacelm. 

Exausto, por ter dormido apenas três horas entre um turno e outro, João da Mata percorreu o caminho até a Vila Toco, passando pelo alojamento da Icomi, a grande mineradora estadunidense que iniciava a exploração brutal do mais puro manganês amapaense, mediante mais violenta ainda injeção de capital público. O ano é 1955: a estrada de ferro que corta, lanha, a selva, até Serra do Navio, estava em início de construção, o que atraía cada vez mais refugiados para o Amapá “selvagem e inculto”, prontos para sorver, mediante escravagista labuta, algumas migalhas do rico manganês a ser extirpado do seio da terra dos índios Wajãpi. Pelas mãos amazônidas – para lucro estadunidense.

A chuva cessara quando Maria saiu da rede, engatando a alça do vestido no mosquiteiro, enquanto Rita dormitava em seu colo, com os cueiros alvos a refletir a pouca luz que adentrava a casa. Abrindo as janelas, Maria aspirou o ar lavado da costumeira poeira seca, e contemplou a paisagem gotejante. Para as bandas da muralha verde que rodeava o pátio de sua casa, ouvia-se o canto delator do uirapuru.

Anoiteceu, e Maria abandonou-se, exausta, em sua rede, feliz por saber que João traria o querosene, tão logo descarregassem o navio e, passando pelo escritório do capataz, receberia a féria. “A valença é que hoje os carapanãs deram trégua”, pensou, de olhos fechados, enquanto lânguido torpor se apoderava de seu corpo e sua mente cansados. Altercações. Uma porta que bate. Não sabia se estava sonhando, mas vozes grossas bradavam palavras incompreensíveis quando, sobressaltando-se, Maria saiu da rede, por impulso, e pôs-se a espiar pela fresta da porta.

À porta da casa de dona Raimunda, esta gritava com dois homens porrudos, que retrucavam, rindo, em idioma desconhecido e incompreensível. Os dois homens puxavam Dona Raimunda, levantavam seu vestido de chita, e chegaram a expor-lhe um dos seios, assediando a pobre comadre, que se debatia. Quando o mais alto lambeu-lhe o mamilo esquerdo, Raimunda conseguiu chutar-lhe o ventre, tombando-o de costas na lama do pátio. 

O companheiro, entre assustado e pândego, ameaçou-a com o indicador em riste, enquanto levantava o companheiro pela gola da grossa casaca de marinheiro.
Esta era a quinta casa da vila à porta da qual os dois batiam, a bradar palavras incompreensíveis para os moradores. Embriagados, afirmavam “procurar putas”.

Maria, assustada, mal teve tempo de passar a tramela por trás da porta, pois que os dois batiam violentamente, gritando palavras incompreensíveis. Em pânico, Maria pegou Rita no colo e, do jirau da cozinha gritou para sua filha, Marilene, que habitava casa vizinha:

--- Pega as criança, corre pro mato, tem gente invadindo!

Mal teve tempo de terminar o alerta quando a porta de tábuas cedeu, e os dois homens, que prontamente Maria percebeu serem dois marujos estrangeiros, postaram-se ao redor de si em atitude ameaçadora. Rindo muito, os dois empurraram-na para o canto da casa... derrubaram-na à força sobre a máquina de costurar, na qual cozia capachos de retalhos – sempre escorregadios sobre os assoalhos de madeira meticulosamente encerados e reluzentes das casas. Agarrando-se ao tipiti que dependurava a um prego, relutou, debalde.

O choro de Rita despertou-a, como que puxando-a de um abismo. Não sabia que horas eram, e nem por quê João se demorava tanto. Como que despertando de um choque, Maria só pôde ver os homens fechando o fechecler de suas calças, e, imediatamente, a consciência recobrada assaltou-lhe o cérebro e a alma como um punhal: estava fadada à infâmia, à calúnia, à morte lenta e agonizante, fadada ao ostracismo o mais brutal, em poucos minutos. 

O calor que escorria por seu sexo, que não pôde saber, de imediato, se era sangue, lembrou sua consciência da dor que ali sentia sem notar. Chorando, buscou recompor-se enquanto os homens, saciados em sua bestial luxúria, acendiam cigarros notadamente gringos – sabia-o pelo cheiro – ainda no pátio.

Tentava levantar-se para gritar-lhes quando ouviu gritos. Era João.

Tomado por fúria incomensurável, João tudo compreendera quando, aproximando-se do pátio da casa de Dona Raimunda, vira a porta ainda aberta, e sua comadre a chorar. Notando os homens parados em frente à sua casa, rindo, trocando tapas amistosos, João ouviu os gritos de Maria, e o chorar plangente de Rita.

Como um raio, João muniu-se de sua faca, a qual trazia sempre às costas, e gritou para os homens, tomado por tamanha ira que seus músculos mal respondiam à seus objetivos.

Ernest Lowery, 28 anos, cozinheiro do Mormacelm e natural de Baltimore correu primeiro, mas Alexander Pelock Jones, também cozinheiro no mesmo navio, natural do estado de Nova Iorque, demasiadamente embriagado, demorou mais a reagir, permitindo que João penetrasse a faca em suas rijas carnes – não obstante fosse corpulento, rosáceo e aparentasse ser obeso. Matando-o com uma só facada certeira no coração, assistiu o corpo cambaleante deitar ao chão, que tremeu ante a capitulação.

--- Ceis tão acostumado a bulir com mulher de família, desgraçados?, gritava-lhes, iracundo, João.

Agarrado pelos vizinhos, vociferava. Apesar de diversas testemunhas afirmarem que os dois marujos invadiram diversas casas antes de abusar de Maria, afirmando, no inquérito, procurar meretrizes, balançando o punho da rede das mulheres das casas vizinhas depois de as terem invadido, uma a uma, João foi condenado à prisão, onde foi espancado, pois o júri entendera se tratar de “cidadão perigoso”, já que portava uma faca, e considerou que assassinar um cidadão estrangeiro, contratado pela Foley Brothers, em plena ascensão da mineradora, era crime a se punir severa e, portanto, exemplarmente.

Maria, mais Rita, desaparecem da História, a fim de que tal episódio não maculasse a gloriosa imagem da Icomi, da empreiteira Foley Brothers, e dos bons cidadãos estrangeiros que não poderiam sentir-se acuados pela selvageria dos locais em sua empreitada civilizatória.

A construção da estrada de ferro prosseguiu. Hectares de floresta capitulavam sob golpes de machado, e, mesmo, explosões de bananas de dinamite, atraindo mais e mais refugiados do Pará e das ilhas de Marajó, como Afuá, Curuçá, Gurupá, Breves, a fim de que as terras nessas regiões passassem aos arautos do progresso e do desenvolvimento higienista, contra os índios, contra a floresta, contra tudo e todos. Sempre comandados por feitores, capatazes, engenheiros estrangeiros, esses “braçais” – como constam em suas fichas cadastrais de empregados da mineradora – eram descartáveis, uma vez que não se civilizavam, não aprendiam novas técnicas, não se desenvolviam. E, uma vez obsoletos, eram prontamente substituídos.

Em favor do progresso e da civilização.

                                                           ***
--- Mamãe, quando é que papai volta?, perguntou, indeciso, Edielson, tão logo a porta de casa abriu-se e, por trás da silueta de sua mãe, se pôde divisar o emaranhado de palafitas da Baixada do Ambrósio.

--- Vai tomar teu banho, senão tu pega é taca, gritou, irritada, Dona Jamaira.

Deixando sobre o jirau a cebolinha e o coentro murchos que catara no chão da feira, conteve as lágrimas enquanto descamava os dois miúdos acaris que conseguira comprar com o resto das moedas que guardava numa fresta da parede carcomida de madeira. Saiu para pegar água, encontrando Edielson a banhar-se com a única panela que lhes restava. “Te sai daí, seu moleque! Hoje tu não escapa, cachorro. Dá essa panela. Olha a água que tu gasta nesse banho”.

Edielson voltou-lhe um olhar feroz. Enrolou-se na toalha, contendo as lágrimas, e calçou os chinelos gastos, cada qual duma cor. De toalha mesmo, saiu para a ponte, errando pelas palafitas até encontrar-se com os filhos da vizinha, Dona Diva, que corriam em tropel em sua direção, fazendo a estreita ponte de madeira tremer e oscilar, como que a ameaçar cair sobre o lago sobre o qual flutuava todo tipo de dejetos. Assustado, Edielson estacou, provacando gritos de ódio dos rapazes que corriam com terçados em suas mãos: “sai da frente!”. 

De chofre, Edielson percebera o que ocorria: o grupo, composto por dois de seus próprios irmãos, Joel e Patrício, estava sendo perseguido por um grupo ainda maior de rapazes furibundos.

Afastando-se para permitir que seus amigos passassem, tomou uma resolução: tão logo seus aliados cruzaram a ponte, postou-se de maneira a bloqueá-la, as mãos à cintura, encarando o grupo de sicários que os perseguia, munidos de facas copiosamente afiadas à lima, a ponta do fio descrevendo uma elipse, e grandes terçados. 

“Eu sou é homem, eu!”, inda pensou, enquanto os golpes dos terçados fendiam seu rosto, decepavam suas orelhas, fendiam seus braços, e as facas penetravam seu tronco. Preocupados, os jovens agressores deram meia volta, a fim de atingir o grupo fugitivo na ponte paralela, interceptando-o.

Joel e Patrício não viram o que ocorrera com Edielson. Temendo por sua própria vida, enveredaram pela última ponte da Baixada, e, notando que o grupo que os perseguia afastou-se, adentraram na primeira casa que encontraram aberta, dentro da qual Mazinho os escondera, para pânico de suas irmã, esposa, e cunhada, já que os dois adentraram a sala, e rumaram para o quarto, fazendo o soalho e as paredes tremerem, os olhos esgazeados – e facas em riste. 

O grupo de perseguidores errou pelas pontes até varar a madrugada, quando, afrouxando-se a perseguição, Joel e Patrício retornaram à sua casa.

Tão logo chegaram à varanda, pressentiram a tragédia. Sua mãe urrava sobre a rede, amparada por Dona Neó mais algumas vizinhas, pranteando a morte de Edielson que jazia inerme e exangue sobre o soalho irregular, o rosto desfigurado, olho pendente, corpo cravejado que deixava seu sangue gotejar por entre as frestas do soalho maculado.

--- Não!!! Não! O que fizeram com ele? Quem fez isso? Gritava Patrício. Joel, enfurecido, nada disse: assomou à janela aberta pela qual entrava chusma de carapanãs, ofegante.

--- Nós vamos vingá ele, mãe.

                                                      ***
O sangue de Dona Jamaira escorria pelo rosto inchado, machucado a murros. Por não conseguir abrir os olhos, tateava os poucos móveis da casa a fim de orientar-se. Na rede, Alaor, seu marido, ressonava pesadamente. “Curte teu porre, fi de rapariga, que um dia tu pega o teu!”, resmungou. O estrondo causado pelas panelas que derrubara acordou Joel e Patrício, que saíram da rede que dividiam, falando alto. “Mãe, to com fome! Eu tô com fome, eu”.

--- Quietos, desgraça! Tão vendo que vão acordar teu irmão não?

Joel, o mais velho, sentia a têmpora latejar. Tomado por ódio, desguiou os olhos para seu pai que roncava na rede, embriagado. “Porre, porre, porre. Só vive porre esse cão! Para trazer comida para nós, não tem força, essa desgraça. Nem dinheiro. Mas para beber, esse filho duma égua...”. Lágrimas assomaram-lhe aos olhos moídos e inchados, aos borbotões, enquanto Joel abria a porta com força, ganhando as pontes.

Patrício encostou-se à parede, e deixou-se sentar ao lado do carrinho de picolé que tantas alegrias lhes trouxera quando o pai, ainda ativo, saía pelas pontes e beiradas a vender o tão cobiçado produto.

---- Papai não dá um não? Pedia Patrício, prontamente repreendido pela mãe, todas as vezes que, enchendo o carrinho de laranjinhas, chopps e picolés, o pai se preparava para caçar alguns vinténs debaixo do ímpio sol equatorial. Sorrindo, o pai sempre lhe presenteava com um chopp de manga, para desgosto de Jamaira. Bons tempos aqueles em que doces regalos eram acompanhados por brincadeiras inocentes nas casas de madeira em construção, e pelas intrépidas aventuras à procura de seu pai, picolezeiro, nas pontes e rampas em que atracavam os catraios e as lanchas...

---- Juro que eu mato esse velho! Eu juro! O ar quente e seco, pesado, que abatia a Baixada do Ambrósio, trazia o pútredo odor do esgoto e do lixo que tomavam o lago. Assomado ao odor nauseabundo do matadouro que fica próximo à Doca, o ar penetrava os pulmões viscoso, pesado.

Joel vagou pelas pontes, a esmo, até que, ao amanhecer, na feira, encontrou Seu Agenor, açougueiro. Hesitou... apertou as mãos, cerrando os punhos, passejou pela banca do homem, observando-lhe cada movimento, até que o esturrar de seu estômago faminto motivou-o:

---- Tio, arruma um pouco de carne para eu mais meus irmãos comer?, suplicou.

---- Sai daí, vagabundo! Toda semana é isso. Tem mais não. Acostuma aquele teu pai a trabalhar. E avisa para ele que ele, Alaor Gemaque, me deve cem cruzeiros! Isso mesmo: tá aqui ó – e mostrou o caderno ensebado, com contas à lápis, maculado por sangue.

                                                        ***
--- Alaoooooorrrr! Cadê você moleque? Mamãe tá te procurando, diz que vai te dar uma taca de cinta!

A estrada de ferro! Ah, como era bom colocar pedras sobre os trilhos quando o trem, carregado de minério, se aproximava, e observar, escondido, as pesadas rodas das locomotivas espocando-as. Chegava o trem, e Alaor partia, descalço, baladeira no bolso da bermuda surrada, para a pequenina estação. Papai viria? Contemplava, curioso, a movimentação dos passageiros que embarcavam e desembarcavam dos dois vagões de passageiros que a Icomi, benevolamente, em sua cruzada civilizatória, disponibilizava.

Tinha muita saudade de papai. Gostava muito de quando saía para apanhar açaí e o levava consigo. Mais feliz ainda ficava quando, caminhando na mata, colhiam maracujás selvagens, apanhavam açaí e pescavam – papai sempre deixava usar a faca. Lembrava-se com ternura dos invernos em que, indo caçar e pescar para as bandas do Amapari, vagavam silenciosamente pela floresta úmida, no rastro de antas, veados, jacamins, mutuns. 

Gostava tanto quando papai saía com ele, levava-o para caçar, apanhar bacaba... comiam murumuru, cozinhavam palmito de açaí, colhiam, pegavam o que quisessem. Gostava de dormir depois de, exausto, contemplar a chama da fogueira onde papai moqueava trairão: gostava de errar por roças antigas, apanhando pupunha, colher abacaxis esquecidos. Uma traquinagem que os unia. “É tudo roça dos índios, meu filho. Espia: veja as variedade de mandioca. Espia esse milho. Abandonaram...”.

Lembrava-se vivamente dos ensinamentos de seu pai quando, a bunda doendo depois de passarem horas sobre o mutá, esperando cutia vir comer tatajuba, ouvia-o perolar, baixinho, sobre como o caçador é um ladrão, mas um ladrão do bem, porque, rápido, ágil, sorrateiro como a onça, abatia a presa, roubava-lhe a vida, tirava-lhe da família, mas era para sustentar a sua. Papai ia deixar matar tucano com a 12.

“Papai virá? Será que vem”. Grossas gotas de suor acumulavam-se sobre seu iminente buço, enquanto deambulava, sorrateiro, por entre as pernas dos passageiros, preocupados em não perder seus pertences – fardos de farinha, bananas, cupuaçus, sacas de açaí, de bacaba, paneiros com galinhas...

Papai não veio. Em Serra do Navio, onde trabalhava como braçal para a Icomi, na mina, Francisco dera para beber, deixando sua mãe e seus onze irmãos à beira da estrada, próximo ao Cupixi onde antes pescavam juntos... Cupixi!

Partindo o trem, deixou-se abater pela decepção. Frustrado, caminhou pela estrada de ferro, na sua cola, sonhando ir até Serra buscar papai. Mamãe, desgrenhada, chorava dia e noite, enquanto os irmãos se viravam no parco roçado: seis tarefas de mandioca, roçado aberto na juquira. Não o levavam para apanhar açaí, nem para moquear peixe, longe... não queriam deixá-lo ir caçar. Moendo as costas, a alça de tucum do jamaxi carregado de macaxeira ainda feria-lhe a testa, dia após dia, mecanicamente. 

O calor do forno, o peso da lenha, a lide diária para descascar a mandioca, torrar a farinha... a dor na musculatura, ao manusear por horas a fio o remo sobre a chapa de ferro do forno, transtornavam sua mãe, que se tornara amarga.

--- Dona Rita: quêde o Francisco? A cada conhecido que parava no rancho, Rita, mãe de Alaor, tinha de inventar uma história. Ora estava em Santana, resolvendo a venda da produção, ora em Porto Grande, na doca seca da Icomi, ora na mina... “Ah vizinho, é muito trabalho!”, dizia, esperando que, com esse gancho, pudesse desviar o rumo da prosa.

Contemplou o rio, e banhou-se. “Seria bom um caniço! Mas tomém, nem num tem mais peixe”, resmungou. Sentou-se sobre uma pedra, debaixo da ponte, e entreteve-se com o rugido bovino da ajearatu. Macucauas piavam na mata próxima, enquanto grupos de tucanos, em algaravia, derrubavam caroços de açaí nos igapós vizinhos.

--- Alaor! Mamãe tá para te matar, mano! É para tu voltar para a casa de farinha agora! O irmão, irritado, inda gritou: “égua dum moleque remoso! Me faz vim até aqui e a mãe tá furiosa”.

--- Papai não veio, resmungou, como resposta.

Nunca mais voltaria. Dona Rita os criara sozinhos, até que, crescidos, foram se espalhando: os mais velhos, casando-se, botando roça nas imediações. Os mais novos, nutrindo o desejo de partir para Porto Grande, ou mesmo Macapá.

--- Arruma tuas boroca que a gente vai embora. A ordem, amarga, pegara-o de supetão, enquanto arrumava, em uma sacolinha plástica, os cartuchos calibre 12 que restavam. “Alaor, não me ouviu? Arruma tuas borocas que a gente vamos pegar o trem”.

A viagem, grande aventura, maravilhou-o. Estariam indo Para Serra? Encontrariam papai?

--- Para de ser enxerido, moleque! Teu pai morreu! Levou foi facada por causa de rabo de saia --- os vincos que ornavam a boca, as gretas, as rugas na pele morena, os cabelos desdenhados, emolduravam a dureza das palavras, ejaculadas com ódio, ressentimento.

                                                       ***
--- Égua, não, esse ônibus não vem? Toda vez é isso.

As meninas abrigavam-se como podiam sob o telheiro de amianto de um trailer de metal que servia lanches, “amburg”, na chapa. “Justo hoje, que a lanchonete fecha, chove desse jeito, o ônibus que não vem...”. A intensa chuva cerrava o negror da pesada noite, obscurecendo as vistas.

Os carros, desguiando dos inúmeros buracos no asfalto fino e irregular, que não chegava até onde convencionava-se que seriam as calçadas, que, sem guia, simplesmente não existiam, aspergiam-nas com a lama que se acumulava, impiedosa. Mais um vão deixado pelo Estado.

Um assobio despertou-a do torpor. Mensagem no whats. Pode ser mamãe, preocupada. Sacou o celular para conferir a mensagem...
--- Anda anda anda! Passa o celular! Já! Agora, se não te furo, filha da puta!

Apavorada, Darliene entregou a Patrício o celular, mas, por um átimo, Michele hesitou... “Naão, por favor! Eu não tenho o celular!”, gritou. Irritado, Patrício desmontou da Caloi Barra Forte, e sacudiu a moça, que gritava por socorro. “Tu vai dar o celular agora, ou morre!”, ameaçava, esforçando-se para não gritar. Mas Michele, desesperada, rogava a plenos pulmões por socorro. “Acode, acode! Pega ladrão!”. Temendo ser flagrado, Patrício esfaqueou-a no ventre, pegou a bicicleta, e pedalou o mais que pôde, sob forte chuva. Rápido, sorrateiro, ágil como uma onça.

Ganhando a ponte, enveredou para a parte dos fundos do Ambrósio, a fim de vender o celular na biqueira mais próxima.

_____
  • Nota do autor: a primeira história incorporada a esse conto é absolutamente verídica, e nos é apresentada pelo historiador Adalberto Paz, professor da Universidade Federal do Amapá, em seu livro “Os mineiros da floresta: modernização, sociabilidade e a formação do caboclo-operário no início da mineração industrial amazônica” (Belém: Editora Paka-Tatu, 2014). Paz realizou uma aprofundada e meticulosa pesquisa em inquéritos e arquivos nunca dantes vasculhados, e nos traz uma historiografia analítica, rica, precisa, apresentada por uma rica prosa. Alguns pequenos detalhes foram por mim modificados. As outras histórias trazidas por mim neste conto me foram contadas por seus próprios personagens, pessoas muito próximas de mim – algumas, inclusive, sendo vivenciadas e presenciadas, como a história de Edielson. Tive a infelicidade de vivenciar esse episódio em Santana, na Baixada do Ambrósio quando, em 2012, deixava o Estaleiro do Seu China. Não é preciso dizer que misturei as narrativas e episódios por mim vivenciados, e que, obviamente, alterei os nomes dos personagens.




domingo, 30 de junho de 2019

A golpes de machado: crônica do Golpe anunciado, vista da Floresta

Texto publicado originalmente em 05 de setembro de 2016 na coluna Filosofias Selvagens que eu possuía no Portal Heráclito.


A golpes de machado: crônica do Golpe anunciado, vista da Floresta

Crédito da fotografia: Bruno Walter Caporrino

--- Ele, o Lula, vem do povo, igual que nem nós. Nós vinhemos de Roraima para cá, é a mesma Perimetral. Alguns dizem que a Perimetral Norte surgiu em Roraima e outros dizem que começou aqui, no Amapá. E eu gostei da sua solução, Bruno: eu acho que começou foi nos dois lugares ao mesmo tempo. Lá, a gente torcemos muito: vai ter Constituição. Lutemo mesmo. Eu mais os minino viemos fugido, por causa que a gente mexia mesmo. Perguntava. Ajuntava todo mundo, queria saber com juiz por que saiu título de imóvel para um e não para os outros. Perseguiam nós. Intimidavam. Mas eu nunca que tinha sido humilhado assim, que nem agora, que nem aqui. Seu Pedro baixa os olhos, envergonhado. 

Desguia os olhos, como quem busca enxergar para dentro. A polpa de cupuaçu tá toda aí se estragando, retoma o fio do discurso. Faz é duas semanas que a gente tamos sem luz por aqui. Tá se estragando, veja se leva para ti – prossegue, contendo as lágrimas.

Seu Pedro acabara de receber ordem de prisão de um auxiliar do juiz, contratado sem concurso público mediante inúmeros manejos eleitorais. O motivo? Os meninos da vila do assentamento jogam bola na lama que fica em frente à casa alugada por esse servidor. Numa demonstração de poder, o despreparado representante do Estado, na verdade um cabo eleitoral, furou a bola dos meninos. 

Quando foi perguntar o motivo, Seu Pedro ouviu que ele furou a bola... porque podia. E teje preso! Humilhado, Seu Pedro voltou à sua casa, e Maria lhe comunicara: por conta da falta de luz, dois freezers repletos de polpa estavam sendo desocupados. A polpa de cupuaçu se estragara.

Pergunto a Seu Pedro o que vai fazer com o resto da polpa que não conseguir vender. Certamente mais de 400 kg. Faz anos que tenho lutado para fortalecer politicamente os agricultores familiares da Perimetral Norte e converter esse lanho aberto na Floresta Amazônica com o intuito de estripar-lhe as riquezas em um veio de desenvolvimento socioambiental integrado, participativo, de base comunitária. Faz anos que estamos lutando para fortalecer as cadeias produtivas dos produtos da agricultura familiar local. Agregar a tão ticos produtos o valor pecuniário que lhes é devido. Faz anos que em Macapá o povo toma refrigerante Mikos, e que a polpa densa e pura do mais nativo e orgânico cupuaçu de Seu Pedro e dos agricultores da Perimetral se estraga.

Mikos sabor Guaraná. Calabresa. Mortadela. Charque. Sal e açúcar. Um verdadeiro “efeito mortadela” se espraia pela Amazônia. Esse conceito foi criado pela bioantropóloga estadunidense Barbara Piperata, que conduziu pesquisas sobre consumo/gasto energético e calórico em comunidades como os ribeirinhos que habitam a Floresta Nacional de Caxiuanã, na região de minha bela Breves, Pará. Piperata pesquisou, basicamente, os hábitos cotidianos dos ribeirinhos: quanto tempo e energia empenham coletando e amassando açaí? E quanta energia adquirem ao consumir esse açaí? O mesmo para pescado, camarão, produtos da roça. É muito interessante lembrar que esse estudo de Piperata comprova, quase 50 anos depois, a tese de Marshall Sahlins, inscrita em seu magistral A primeira sociedade da afluência.

Sahlins aceita “jogar o jogo” do sistema de valores capitalista: se fossemos aceitar o desafio, e calcular o quanto de energia um povo indígena, ou seja, um “povo primitivo” gasta para conseguir energia e sobreviver, e o quanto de energia um homem ocidental urbano, “desenvolvido” gasta para conseguir a mesma quantidade de energia, pressupondo que esse coeficiente seria suficiente para estabelecer uma hierarquia quanto à técnica, quem ganharia?

Sahlins aceita o desafio e prova: modos indígenas de produção, reputados como arcaicos, primitivos, rudimentares, e, portanto, ineficientes... permitem comprovadamente que um homem precise apenas de menos de três horas de trabalho por dia para viver, e muito bem. Trabalhamos 10 horas por dia, em média, mas não por nós, não para nós. Fazemos casas para os outros. Carros para os outros. Obesos, desnutridos, vivemos uma epidemia de câncer. Enriquecemos latifundiários, exportamos água, junto com o filé mignon, e defendemos os que, colocando-se contra o SUS, fazem com que nos prostituamos para conseguir jantar câncer.

Todas as vezes que passo temporadas com meu mestre e amigo Seu Pedro, lembro dessas duas pesquisas. Piperata estudou os ribeirinhos de Caxiaunã bem no momento em que, sendo atendidos pelo Programa Bolsa Família, eles passaram a ter mais acesso a dinheiro, cartão de banco, fomento. Contudo, a pesquisa de Piperata é rica por desvendar justamente o interstício sobre o qual venho dedicando minha vida a refletir e descrever. Recebendo o benefício, os ribeirinhos passam a se empenhar cada vez mais em ir à Breves para recebê-lo. Longas viagens de barco são necessárias para chegar à sede do município, onde é necessário gastar dinheiro para comer. Estando longe de casa, não se pesca. Não se caça. Não se broca roça. As famílias passam a ficar semanas na praça da cidade, ou em hotéis, para conseguir receber os benefício. Ao recebê-lo, pagam as dívidas que contraíram em sua estadia na cidade – combustível, alimentação, hospedagem.

Fazem um rancho, e voltam à comunidade. A pesquisa de Piperata mostra que as famílias beneficiadas passaram a consumir cada vez mais alimentos em conserva – mortadela, especialmente. Trocando o peixe nativo, fresco, obtido de maneira sustentável pelas suas próprias mãos, por mortadela industrializada; trocando o açaí por refrigerante e sucos industrializados, a ingestão de nutrientes caiu vertiginosamente. E o gasto de energia para obter tais alimentos, tão pobres em nutrientes, subiu também vertiginosamente. Décadas depois, é triste ver, não que Sahlins está certo: mas que o raciocínio que ele derruba, aniquila, com sua pesquisa, ainda prevalece. E se impõe.

Agricultor familiar, Seu Pedro é assentado. Cultiva cupuaçu, de maneira praticamente agroflorestal, sem apoio técnico, mas com base em vastos, eficazes, e sólidos conhecimentos tradicionais. Produz a mais densa e pura polpa de cupuaçu que já provei em minha vida. Gosta de falar de política. É um militante do desenvolvimento socioambiental integrado e participativo. Milita pelas áreas protegidas, pelo Parque Nacional, pela Terra Indígena, de que é vizinho. Aliado de rocha, dos índios, dos castanheiros. Formador da Escola da Família Agrícola. Conselheiro.

Seu neto, aluno da Escola da Família Agrícola, amola o terçado e olha distraído o enxame de carapanãs que se forma sobre a cabeça de Tereza. “Deu na TV, eu tava em Pedra Branca: o Lula foi de algemado dar depoimento. Dizque roubou dinheiro da Petrobrás e comprou apartamento. Eu vi isso na TV, eu”.

--- Ele é igual que nem nós: por isso os poderosos se irritam com ele. É analfabeto. Eu sou analfabeto. Eu acreditei nele. A gente sonhava ter um presidente nosso. Já pensou? Presidente, vindo do povo? Nunca falo de política cá Maria, mas nós sabemo o que lutemo por esse homem – por nós. Batalhemos por ele. Fiz campanha aqui. Era a esperança da gente. Depois que tomou o poder, parece que mudou. Virou outra pessoa.

Pergunto o que teria mudado. “Para conseguir caçar queixada, a gente temos que chamar os parentes: vai cunhado, vai irmão, vai sobrinho. Não é assim? Pros índios também. Pra botar umas tarefas de macaxeira na juquira, tem que chamar parente, amigo, cunhado. E depois? Depois você divide a caça. Torra a farinha, e distribuir as sacas. Assim que todo mundo faz. Lula tomou o poder botando tarefa em juquira dos outros, com terçado dos outros. Dilma foi e vendeu a produção. Não dividiu com ninguém. Foi pior ainda: dividiu foi a produção com quem nem foi plantar, porque esses apoiaram ela, que eu sei. Sem o dinheiro deles, ela não se elegia”.

Por qual motivo teria ela feito isso? Todos se perguntam. Sei respostas, mas meus conhecimentos em ciência política são apenas categorias a priori do entendimento. Vasos vazios, cuja vida, em seu fluir, é que deve preencher. E quanto à vida, o mestre é Seu Pedro.

Deixo a casa de Seu Pedro rumo à Terra Indígena. Lá, organizados, os Wajãpi fazem história. Influenciando ativamente a construção e execução de políticas públicas, norteando-as, ensinam o Estado como ele deve ser segundo seus próprios termos. O movimento indígena chora. Sangra. Paralelamente à divulgação dos resultados da Comissão Nacional da Verdade, especialmente os que se referem ao etnocídio praticado contra povos indígenas durante o período da ditadura militar, que comprovam se tratar de um genocídio de Estado, regiões como Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, chacinas são cometidas contra povos inteiros, sendo hoje incontáveis as mortes de indígenas com amparo, aval, e incentivo do Estado: criança indígena é esfaqueada no colo de sua mãe, que, expulsa de sua terra, mendigava na rodoviária, lideranças são perseguidas e baleadas na calada da noite, agrotóxico é aspergido sobre acampamentos às margens das terras que sempre foram dos Guarani... tudo filmado. E nunca divulgado.

Um verdadeiro etnocídio se delineia no Brasil. Projetos da Ditadura Militar para a Amazônia, que nem o mais neoliberal governo FHC ousou retomar, são retirados da gaveta e colocados em prática de maneira brutal. Belo Monte rega com sangue indígena os canteiros de obras onde o índice de homicídios aumentou mais de 500%. Estupro. Latrocínio. Os povos indígenas do Xingu, os ribeirinhos, os agricultores familiares sangram, são assassinados, ameaçados à base de bala, expulsos de suas terras: veem suas casas e roçados serem incendiados. Veem suas lideranças perseguidas, coagidas. São assassinados.

Veias abertas da América Latina: lanhos percorrem a Amazônia. Um estupro, uma pilhagem, sistemática, passa a ser... política pública. Política de Estado. Propostas de Emenda à Constituição, como a PEC 215, agridem dura e direta, dolosa e brutalmente os direitos indígenas mais fundamentais: sem consulta prévia, livre, e informada, assegurada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (pode-se ler mais sobre isso aqui: http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/502/pactuando-um-contrato-social-o-direito-a-autodeterminacao-indigena-e-a-convencao-169-da-oit.html ), Belo Monte, São Luis do Tapajós, mega-hidrelétricas são construídas, pelo Estado, com dinheiro público, à revelia dos povos que essas obras dizimarão. Sob pressão das empreiteiras e bancos que financiam mídia e campanhas.

Etnocídio. Golpes, golpes, e mais golpes. A floresta capitula. Golpes de machado cerceiam nossa humanidade. A sociobiodiversidade é o que nos faz humanos, e não a negação da “natureza”. Quando o pensamento ocidental aprenderá isso? O Brasil era a chance concreta de reverter isso. A vida inteira que poderia ter sido... e não foi.

 Ao contrário do que postula o conhecimento ocidental moderno (pode-se conhecer mais em http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/500/abismos-simbolicos-natureza-cultura-como-as-urbanidades-amazonidas-revelam-as-vidas-que-poderiam-continuar-sendo-e-nao-tem-podido.html), fazer-se humano, criar cultura, não consiste em negar a natureza, superando-a, estuprando-a.

Mas não é assim que o Estado é pensado desde seu surgimento. Vimos que o capitalismo se calca justamente no estupro: estuprar, abrir as entranhas da terra, rasgar lanhos nas florestas, e estripar riqueza (mais em: http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/575/voce-esta-implicado-e-nao-vai-bamburrar.html).

 O governo do PT subiu ao poder assinando um pacto: propondo-se a “jogar o jogo”, aceitou fazer as coligações que o famigerado presidencialismo de coalizão comina. Num sistema democrático tão novo e inexperiente como o nosso, num país marcado por séculos do mais cruel caciquismo, do mais brutal coronelismo, e do mais pungente paternalismo, eleitores votam por carisma: votam em candidatos, e não em plataformas políticas.

Desde a Constituinte de 1988, cujos esforços em evitar que novo Golpe se consolidasse são, por assim dizer, a gênese do Estado de direito brasileiro contemporâneo que hoje, 01 de setembro de 2016, sofre duro golpe, temos um sistema pluripartidário, cujo objetivo é evitar que apenas uma visão, apenas uma postura, apenas um segmento de tão diversa sociedade fosse representado. Ao assegurar o pluripartidarismo, a Carta Magna visa garantir que os diversos segmentos da sociedade brasileira encontrem representatividade, ao garantir a diversidade de opiniões políticas facultadas por meio da sacrossanta representatividade que é o pilar da democracia. Mas não se muda 500 anos de história em 28 anos.

Outro pilar da democracia é a cidadania. Teoricamente, um Estado democrático de direito deve realizar-se mediante a participação organizada, consciente, e pró-ativa da sociedade civil. É comum ouvirmos, no Brasil, que “a lei é falha, cheia de brechas”. Que o Estado seria omisso em algumas questões. Isso só vem a comprovar a tese: não temos cultura política cidadã no Brasil. A cultura política no Brasil é a da curra, do pelourinho, do chicote, do estupro e da pilhagem. A sociedade civil brasileira é, até hoje, vítima tão inconteste de agressões a seus direitos e garantias fundamentais, desde sempre, que pressupor que a democracia brasileira se realiza ao colocar-se 180 milhões de ex-escravos para apertar um botão é uma ofensa a qualquer inteligência.

Os resultados disso são desastrosos. Promulgar uma Constituição não foi suficiente para mudarmos o modelo de país – pois o Brasil nunca foi senão um proto-país, uma despensa. Promulgar uma Constituição não modificou nossa estrutura de classes. Racista, conservador, o Brasil patriarcal é uma grande senzala, teleguiada via imprensa da Casa Grande e Branca, cada vez mais pequena. O PIB brasileiro cresceu de maneira constante e progressiva durante a primeira década dos anos 2000. Mas o índice de Gini, que mede a (não)distribuição de renda, manteve-se praticamente o mesmo. O que isso significa? Significa que o PIB cresceu grande e progressivamente, mas a riqueza não foi distribuída. Significa que as mesmas, e poucas, pessoas, lucraram cada vez mais.

Significa que, para que essas mesmas poucas pessoas lucrem cada vez mais, concentrando cada vez mais a riqueza gerada, cada vez mais os “recursos naturais” foram explorados. E com uma brutalidade cada vez maior.

Continuou-se a pilhar, saquear, estuprar. Índios, quilombolas, ribeirinhos, o agricultor que efetivamente põe comida na mesa do brasileiro, são chacinados. Pelo Estado. A mando do agronegócio. O Brasil colônia, que surgiu há 500 anos como uma despensa a ser pilhada sistematicamente, não se libertou nem de sua história, nem de sua estrutura de classes.

Feudal, o Brasil passou a ser controlado por uma miríade de partidos nanicos que, gravitando em redor de partidos maiores – como o PT – fragmentam o eleitorado e, assim, exercem poder sobre toda e qualquer plataforma que se venha a consolidar.

Coligada aos partidos mais conservadores do país, aliada às bancadas ruralista, evangélica, e beligerante, ou seja, aliada ao Congresso BBB, Dilma Rousseff celebra a exacerbação desse pacto. Elege-se para seu primeiro mandato com apoio de PR, DEM,PP, PROS, PAN... e, sobretudo, o plástico, maquiavelicamente plástico e fagocitante PMDB. O PT deveras aceitou jogar o jogo: Duda Mendonça, em 2002, já o dizia. Se visava valer-se da lógica do sistema para subverter a ordem uma vez no poder, o PT falhou horrivelmente.

Dilma Rousseff era ministra de minas e energia no Governo Lula. Foi Dilma que, ainda em 2004, bateu na mesa, enfaticamente, bradando que “Belo Monte vai sair, custe o que custar”. E custou sangue. Mortes. A biodiversidade alagada. Muitos mundos por água abaixo. Para que Belo Monte (monumento do governo Dilma, sob o prisma de quem o observa da Amazônia) fosse construída, muitos mundos foram destruídos. O Planeta, por tabela.

Ao se propor a “jogar o jogo”, o PT aceitou coligar-se a todos os partidos que pudessem dividir o eleitorado: antes tê-los próximos do que vê-los minar o eleitorado. Tal manobra falhou miseravelmente porque tais partidos digladiaram-se pelo poder de maneira tão brutal que qualquer chance de promover governabilidade foi posta sob ameaça direta. O resultado concreto? Marco Feliciano, que, diga-se em alto e bom som, só assumiu a pasta depois de Jair Bolsonaro, o primeiro indicado, ter sido cortado da lista. Qual pasta? Pastor Marco Feliciano, do PSC (aliado do PT) assumiu nada mais nada menos que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Ao aceitar “jogar o jogo”, o governo Dilma Rousseff aceitou ter suas campanhas eleitorais financiadas por Odebrecht, OAS, Camargo Correa: empreiteiras. Itaú Unibanco, Bradesco. Para se eleger, Dilma Rousseff, o PT, aceitaram vender o mundo – em troca de subir ao poder. Será que o plano era apenas ceder para subir ao poder e, lá, impetrar um outro modelo de país? Entre a intenção e a prática, houve morticínios.

Em troca de assumir o poder e consolidar um outro projeto de país, programas sociais de transferência de renda, cujo objetivo sempre foi transformar o caboclo, o ribeirinho, o quilombola, o indígena, o agricultor familiar, em mais um refugiado do campo, converter as almas dos silvícolas em consumidores. A concentração fundiária caminhou pari passu com o crescimento do PIB, e a manutenção do alarmante índice de Gini brasileiro, durante o governo PT.

Expulsas do campo, as populações tradicionais foram conduzidas à periferia da periferia da periferia da periferia da periferia do mais selvagem capitalismo terceiromundista. Abandonando sua soberania econômica, simbólica, cultural, política, linguística, material no campo, na floresta, onde latifúndios, verdadeiras capitanias hereditárias regam o solo com agrotóxicos proibidos em mais de 90% dos países do mundo, e sangue humano, as populações do campo e das florestas viram o preço da castanha despencar, e as condições para explorar esse recurso sustentável sumirem. O mesmo se dando com peixe, caça, produtos da roça, comida, vida, cultura.

Dilma Rousseff e o PT são reputados pela mídia golpista como um governo de esquerda. Comunistas. É esse o gran finale trágico desse momento dramático de nossa história. Financiado pelas grandes empreiteiras, o governo PT vendeu a elas o poder popular. Uma vez eleito, foi obrigado a fatiá-lo. Uma vez eleito foi obrigado a fazer Belo Monte, para citar apenas um crasso exemplo. As mesmas empreiteiras que financiaram a campanha de Dilma Rousseff e antes, de Lula, são as que fabricam delírios da ditadura militar que Dilma tira da gaveta. Delírios do regime que ela mesma combateu. Essa a pior, a mais dura, ironia.

A des-governança latente no governo Dilma, inerente às alianças que teve que fazer para subir ao poder, demonstra, desnuda, as fraturas do Brasil. Saque, pilhagem, estupro. A lava Jato não é senão uma grande manobra para destituir do poder uma chapa que se deixou corromper pelas empreiteiras. Lava Jato não pode ser pronunciada sem Odebrecht, OAS, Camargo Correia, Bayer, Monsanto, Syngenta. O mesmo se dando com PMDB, PSDB. São termos que não podem ser pronunciados isoladamente. Lava Jato = Odebrecht. Odebrecht = PSDB. PSDB = PT. Novamente, como há 516 anos atrás, o Brasil é uma despensa a ser explorada, devassada, por poucos coronéis. Novamente, como há 50 anos, um presidente civil assume o lugar como fantoche.

O consórcio com o PMDB, e a manobra, o GOLPE realizado pelo octopus, foi o golpe final. Nas humanidades de que se compõe essa trágica sociedade.

A pergunta que me faço, desde 2013 é: como um governo onde o agronegócio, os bancos, e as empreiteiras mais lucraram na história desagrada aos donos do poder? Não estaria sendo suficiente a política etnocida do Estado Brasileiro por ele levado a cabo? O que querem os verdadeiros donos do poder ao impetrar o Golpe Final? Se estava ruim com Dilma, humanos, sequer conseguiremos imaginar como estará com Temer.

Todas as riquezas do Brasil serão definitivamente entregues aos grandes investidores, empreiteiras, bancos. O solo será regado com sangue e agrotóxico. De novo, Geni, de novo, és estuprada, serves, enriqueces, dás prazer, e és humilhada, estuprada, devassada.

Esse golpe, especificamente, começou em 2002, quando Lula fez as coligações que fez. Mas a surra, o Golpe, esse começou há 500 anos. E nunca parou. Ouçam! Golpes de cassetete se fazem ouvir novamente, nos poucos, pouquíssimos que percebem o que está acontecendo – enquanto, infelizmente, grande parte da sociedade brasileira aplaude a corja que se apropria anti-democraticamente do poder. A mesma que serve aos mesmos financiadores da presidente derrubada.

Ouçam! Os golpes de machado prosseguem. A cada Angelim, a cada jatobá, a caba imburana que cai, é nossa dignidade que recebe os golpes. Guarde suas moedas. Em troca do pirarucu, tambaqui, inajá, açaí, pupunha, da riqueza que nunca provastes, reze para, no fim do mês, comprar mortadela suficiente para alguns dias. Afinal, pupunha não dá lucro a bancos. Madeira e soja sim.

Bruno Walter Caporrino
Setembro de 2016

terça-feira, 21 de maio de 2019

Nos olhos dos outros - Bruno Walter Caporrino


Nos olhos dos outros
Bruno Walter Caporrino


As ruas estavam tomadas por toda sorte de dejetos multicoloridos quando Hans desceu do taxi. A aurora se anunciava timidamente pelas frestas deixadas pelos arranha-céus, coriscando, lá e cá, nas janelas. Varando a densa e azulada névoa que fedia a pólvora queimada de rojões, os raios de sol incidiam sobre o fractal vítreo dos prédios e iluminavam pontos específicos do panorama que Hans passou a contemplar entre extasiado e aflito: montanhas de latinhas de cerveja, garrafas de cachaça, adereços feitos na China, cada qual mais berrante, imiscuíam-se aos ébrios largados nas sarjetas enquanto zumbis vagavam à cata de metal.

Hans fora informado de que esta não era a melhor época para visitar a Taliãolândia: o carvanal, a apoteótica e gigantesca festa popular que parava o país, acontecia bem naquela semana. Formalmente, pois Hans averiguara que em Taliãolândia todos os dias era carvanal, mas que apenas naquela época, especificamente, o Governo dava autorização para que ocorresse plenamente e a bandeiras e bragas desbragadas.

Um morador de rua ou talvez engenheiro ou cirurgião – àquela altura da quinta feira cinzenta era difícil saber a diferença – esgueirou-se sorrateiramente por entre suas pernas, revolvendo uma miríade de dejetos a gritar por seu celular. “Fui roubado, não acredito!” sentou-se, atônito, as mãos à cabeça e o olhar desnorteado de tão embriagado. Tampando o sobrolho com as mãos, Hans achou por bem carregar sua valise para o hotel.

---- Primeira vez na Taliãolândia, senhor? Perguntou, bocejando, o recepcionista.

Quando Hans ia responder, deu-se conta de que sua mala já não mais estava a seus pés, onde havia deixado: “sim, e talvez a última”, ainda pensou em responder, contendo-se diante da hipótese de que quem a carregada pudesse ter sido o encarregado do hotel. Quando o recepcionista jogou as chaves no balcão, gritando “234, segundo andar” enquanto subia as calças pelo cinto, acomodando a barriga exatamente por cima dele, Hans se deu conta de que teria que passar a semana no país sem nenhuma roupa além daquela com que chegara: a valise já havia sido furtada.

A viagem de Hans à Taliãolândia mal pôde ser planejada: jornalista renomado, especializado em cobrir com perfeição grandes furos políticos, Hans comprou as passagens assim que soube que o candidato Ricardo Walter havia ganho o pleito. Walter era um outsider puro sangue: praticamente desconhecido, mesmo na Taliãolândia, pelos melhores e mais informados lobistas, jornalistas, juristas, etc, fez uma campanha rápida e simples, derrotando de maneira inacreditável o candidato que há meses seguidos estava melhor cotado para ganhar o pleito. 

Seu adversário, Jairo Fecalsaro era um parlapatão de extrema-direita, ex-oficial do exército expulso da corporação depois de inúmeros atentados que, depois de comprovou, visavam aumentar seus rendimentos, passara 27 anos no Congresso como Deputado sem propor ou aprovar projeto algum. Facalsaro era um brucutu que poder-se-ia tomar por um estereótipo do senhor de engenho rural que chicoteia e estupra por hobby ao amanhecer: usava botinas de elástico e representava o que de mais abjeto se poderia extrair de um verdadeiro senhor rural ignorante: violento, cruel, ganancioso e, por isso mesmo, extremamente popular.


Hans sabia, bem formado que era, que os habitantes de Taliãolândia amavam tiranos: todos os cientistas políticos da Taliãolândia eram unânimes em concordar que, gentil e cordial, o habitante da Taliãolândia não negava o passado brutal que inaugurou aquela colônia de presidiários e escravos onde se praticava estupro e mutilações para divertimento da elite colonial até muito pouco tempo atrás. Olho por olho, dente por dente, o taliãolandês era apaixonado pela vendeta: lançando mão de um repertório tribal que infelizmente fora deturpado pelo neopentecostalismo, o taliãolandês só entendia uma língua: a da vingança.

Hans sabia disso, e havia inclusive esboçado alguns ensaios sobre o rico mas ao mesmo tempo miserável país que, despontando entre os 6 países mais ricos do mundo, montava no dinheiro que obtinha explorando de maneira voraz e assassina seus recursos naturais enquanto 90% da população vivia com menos de cem monarcos (a moeda local) por mês.

Seis homens eram proprietários de mais da metade das terras e dos recursos da Taliãolândia, e Hans os havia entrevistado diversas vezes. Desta feita, contudo, preferia focar sua atenção nos taliãolandeses: ouvir o clamor das ruas e compreender os efeitos da inusitada e inédita eleição de Ricardo Walter.

---- O que eu acho dessa proposta dele? Sei não, rapaiz. Nós votêmo mais foi porque se não vota o dono da loja ia ponhá nós na rua. Se ele mandou nós votá num candidato? Sim! Passou o ano todo falando que se nós não votasse o Fecalsaro ia cortar nossas mão, igual fizéro com nossos avô tudo - disse um morador da Taliãolândia numa das primeiras entrevistas.

Hans tinha ideia disso tudo. Mas... ver, com os próprios olhos, era diferente. Pessoas brigando por frutas estragadas, aos montes, num país que era o sexto mais rico do mundo, era muito difícil de compreender. Mais difícil ainda estava sendo entender como a população, tão explorada, apoiava Fecalsaro que declarava ódio à negros, pardos, nativos, mulheres, grávidas, idosos, enfim, todos que não se enquadrassem em seu arquétipo nazista de raça pura. Mas quem se assustava com o apoio popular a Fecalsaro precisava conhecer a historia da Taliãolândia: o nome da colônia advinha de Talião, um dos déspotas preferidos pelos pastores que foram encarregados de, jogando fora o Novo Testamento, criar todo o ideário, a simbologia, os valores da “Pátria de Talião”.

A população, como é de se esperar, passara séculos sendo currada e chicoteada em praça pública pelos poucos senhores que eram donos das terras, donos deles, das gentes, donos das águas, e que eram irmãos dos pastores, irmãos dos juízes, primos dos delegados, tios dos jornalistas... quem “cresceu pulando cadáveres calcinados só conhece cadáveres”, pensava Hans enquanto atravessava uma praça entre a multidão que corria para abrigar-se de um tiroteio promovido pela Polícia (que dominava o tráfico de cocaína) e os milicitares, que dominava o tráfico de armas e de maconha. A disputa, Hans apurara, era pelo domínio das linhas de ônibus.

A diferença entre os policiais, agentes do Governo, e os milicitares consistia apenas em que os policiais traficavam mas eram funcionários do governo e do Judiciário, enquanto os milicitares eram os mesmos policiais, unidos aos traficantes não policiais, que traficavam nos horários de folga. Hans conheceu dois policiais que, no meio da entrevista, tiraram a farda, puseram balaclavas e assumiram outro discurso para o gravador. Boquiaberto, perguntou o que acontecia: “nada, é que deu 4 hora, aí acaba nosso turno na corporação, daí nós vira milicitar”.

A brutalidade dos milicitares era combatida pelas forças policiais com... brutalidade. E em meio ao holocausto urbano, Fecalsaro e seu discurso de ódio contra a roubalheira e corrupção que eram o pilar, o marco zero da história da Taliãolândia, fez com que chegasse a mais de 65% e intenções de votos naquela eleição.

Mas foi então que Ricardo Walter apareceu, com sua fala mansa, jeito simples e modos polidos. Articulado, versava sobre a Legislação Federativa com seriedade mas sem afetação, e acabou conquistando as massas ao lançar sua proposta em pleno debate eleitoral ao qual Fecalsaro sequer apareceu: a proposta de Ricardo Walter irritava tanto Fecalsaro quanto Getúlio Cícero da Silva, o candidato que se dizia de esquerda, e que resgatava o caudilhismo latino-americano de tal modo que Evita Perón verteria lágrimas.

A proposta de Ricardo Walter era, em linhas muito gerais, o que ele mesmo denominava “democracia radical”. Ricardo Walter propôs que, se eleito, faria com que todos os moradores da Taliãolândia fossem à Justiça assinar o que chamou de Contrato Social. O Contrato Social era basicamente a Constituição, elaborada de modo a firmar um contrato no qual o governo e os cidadãos se comprometiam mutuamente, contraindo, ambas as partes, direitos e obrigações. Pelo Contrato, os cidadãos eram obrigados a matricular seus filhos na escola pública, que o governo era obrigado a oferecer, e assim por diante.

Mas o que gerou polvorosa entre os habitantes foi o segundo componente da proposta de Ricardo Walter: ele prometia que, assim que eleito, todos os dados das redes sociais dos moradores de Taliãolândia, que estavam absoluta, radical e mesmo violentamente divididos nas eleições entre Getúlio Cícero e Fecalsaro, seriam incorporados a fim de levantar um perfil dos cidadãos e encaixá-los em “planos de cidadania”.

Segundo a proposta, feita diante de um país radicalmente dividido e convulsionado às vésperas da eleição mais disputada e acirrada de sua história, os cidadãos seriam agrupados em função de suas opiniões sobre assuntos fundamentais que operavam essa divisão do país, tais como a tortura, a ditadura (incluindo a censura e a perda de direitos de participação), aborto, prisão sem trânsito em julgado, direito de constituir advogado ou não, direito das forças policiais atirarem contra cidadãos mesmo sem instaurar inquérito, averiguar provas, instruir processo: metade da população de Taliãolândia era a favor, e metade violentamente contra todos os princípios de um Estado democrático de direito.

A discussão em torno de aspectos tão radicalmente fundamentais havia sido obliterada pelo partidarismo típico dos taliãolandeses: há muito que, para esta analfabeta e dançante população, política eleitoral e futebol eram a mesmíssima coisa, de modo que possuir e expor opinião política consistia em mais uma vertente do jogo de futebol, que implica em massacrar a torcida do time adversário não por motivos lógicos e racionais mas... porque torce para o time adversário.

Assim, a proposta de Ricardo Walter sacudiu o cenário: concretamente, a plataforma política dele previa que, assim que eleito, os cidadãos iriam aos cartórios assinar seus contratos. Mas os termos dos contratos estariam dados pelas manifestações pregressas dos cidadãos: aqueles que, antes das eleições, haviam manifestado publicamente, nas redes sociais, que eram a favor da pena de morte, por exemplo, assinariam um contrato no qual aceitavam viver em um país onde poderiam ser sumariamente assassinados por policiais se, de repente, esses policiais achassem a bunda da esposa desse cidadão atraente e estivessem interessados em fuzilá-lo para estupra-la em alguma viela escura e depois inserir papelotes de cocaína no porta-luvas de seu carro.

Já aqueles que manifestaram nas redes sociais serem a favor do Estado democrático de direito, teriam o direito a constituir advogados, à ampla defesa, e a só serem efetivamente condenados se, ao cabo do devido processo legal, ficasse provado seu crime.

Segundo a proposta de Ricardo Wagner, os dados deveriam ser colhidos de maneira retroativa, a fim de assegurar que os cidadãos, que defendiam tão apaixonadamente suas posições antes das eleições, não mudassem de ideia quando o sistema fosse de fato posto a funcionar. A proposta previa ademais, apurara Hans, que ao assinar os contratos os cidadãos receberiam novos documentos: verde para aqueles que eram a favor do Estado democrático de direito, preto para aqueles que eram contra direitos e garantias fundamentais. Estes últimos não teriam direito a um sistema público de saúde e à aposentadoria, por exemplo, mas Hans apurara que a população só se dera conta disso realmente quando do dia da posse.

Hans estava empolgado. Era o dia da posse de Ricardo Walter e ele conseguira um espaço no camarote reservado à imprensa. Todos aguardavam o início da cerimônia quando, de ambos os lados da ampla avenida Galiléia, os dois carros apontaram: de um lado, o atual presidente da Taliãolândia, Miguel Tâmisa, que deveria caminhar até encontrar-se com Ricardo Walter e passar-lhe a faixa presidencial.

Do outro lado, Walter desponta acenando. Extasiados, os jornalistas e observadores internacionais começam a transmitir ao vivo este momento inédito em que um novo regime de governo, tão radical, será empossado, fazendo cada qual suas inúmeras considerações: funcionará? Saberão ceder à ele aqueles que mais sofrerão, ou seja, aqueles que defenderam o fim da Previdência, do sistema de saúde, da democracia?

Tâmisa caminha a passos largos, com as mãos atrás das costas, para no meio da avenida Galiléia e encara Walter, que ainda precisa dar alguns passos para encontra-lo. Mas, súbito, quando Ricardo Walter se prepara para dar os últimos passos ao encontro da Faixa Presidencial, um grupo de militares o cerca, o golpeia, se joga sobre ele e o retira de cena, entre uivos e aplausos da multidão da Taliãolândia, ainda dividida.

----- Nós não assinamos contrato algum, disse Tâmisa à atordoada imprensa, enquanto passava a faixa a Fecalsaro. “A proposta de contrato era do Ricardo Walter, mas, como ele era subversivo pedófilo comunista maconheiro, nós o prendemos, em nome da Pátria e de Deus, e reestabelecemos a ordem”.

---- Mas, o que é a ordem?? Gritou Hans, indignado, sem poder conter-se e assustando-se, inclusive.

---- A ordem, meu filho, é quando quem pode manda e obedece quem tem juízo. Lei é para bater nos outros, não para fazer justiça, declarou Tâmisa, ovacionado pela multidão.

Deprimido, Hans voltava ao aeroporto quando deparou-se com um grupo de manifestantes. Abaixou os vidros do carro, contra a vontade do taxista, que mal teve tempo de gritar que não o fizesse. Arrancado para fora do carro, Hans teve todos seus pertences furtados pela massa que o pisoteou e machucou bastante.

Depois de arrastar-se para o carro novamente, desesperado, num esgar de choro perguntou ao motorista: “quem era aquela gente? Me roubaram tudo o que eu tinha! Me bateram”.

---- Manifestantes contra a corrupção senhor, respondeu, palitando os dentes, o motorista.

Na Taliãolândia, aprendera Hans da pior maneira possível, a única lei é a de Gerson: levar vantagem em tudo, da qual decorre o artigo segundo: aos amigos, tudo! Aos inimigos, a lei.

Bruno Walter Caporrino
Manaus, outubro de 2018
(Revisado em fevereiro de 2019)